quinta-feira, 14 de abril de 2016

Bis Morgen

O passado é estático.
Eu não creio no futuro,
Nem em qualquer projeção estética
Nem surrealismo imprático.
Bis Morgen,
Depois de agora existirá o limbo.

A gente não tinha coesão,
A ferida se abria,
Eu só não queria
Dar os pontos,
Por suas abrangências,
Nem vírgulas,
E dei reticências.
O chamado soou, eu tinha um pé no
                    [barco,
Vi a espuma confusa em meu Leviatã.
Bis Morgen, pensei,
Eu não acredito no amanhã.

Eu queria um jeito de garantir
Que aquele corpo era seguro,
Que havia futuro.
Eu sabia as respostas,
     (Você não vai me dar tchau direito?)
Eu virei minhas costas,
E quando me dei conta de que seria a
                    [última vez,
Aquele corpo inseguro,
O meu porto perjuro,
Andava de costas, vestia uniforme
E eu não tenho uma última lembrança
Daquele olhar.
Quando me dei conta e virei para trás,
Disse o corvo: nunca mais!
Bis Morgen, tive raiva e não disse.

Nunca disse nada:
A tristeza,
O desconforto,
A saudade,
E como se nunca tivesse amado,
Eu não disse.
Eu não acredito em futuro que não o
                    [torpor.
Bis Morgen, todos os dias adiando a dor
Transformando em limbo a solidão
Que habita o torpor entre o meu passado
E a minha paixão.

O presente é vivo e inadiável.
Deixa o futuro que te aborrece ser menor
                    [que o meu abraço.
Você nunca vai apagar a minha dor,
Mas a tornou pequena,
Quase amena,
Inferior.
Me ajuda a retribuir, porque quero dizer:
O amor existe,
Eu te amo,
Como se nada nunca fosse triste
Desconfortável,
Nostálgico.
Me diz: Bis Morgen, mein Herz,
Porque vai ser um limbo viver sem você
                    [até amanhã.

E vou dizer tudo,
Vou dizer desesperadamente,
Porque sinto demais,
Ressinto demais
E não quero sentir muito:
Eu te amo.
Vou sentir sua falta todos os segundos
Até que chegue uma nova manhã.

Toda vez que você vai embora
O tempo não passa,
E se até ele que é todo sente essa saudade
                    [fatal,
Que faço, se sou só eu,
Jaz-viva mortal?

Toda vez que você vai embora,
Bis Morgen, mein Herz.
Você me faz ter esperança no amanhã.

terça-feira, 5 de abril de 2016

O altar de carne

   Lúcia sentou-se em frente ao seu melhor amigo. Havia caminhado na brisa fria e deliciosa da manhã para vê-lo, vez ou outra desviando da garota fina e gelada. Carregara até seu local preferido da cidade uma barra de seu chocolate favorito como uma procissão carregaria a hóstia.
   Agradecia a presença do amigo, ele fora testemunha de sua vida. O crescimento, o amadurecimento, as camélias que caíam. Suas dores todas foram choradas frente às pernas cruzadas e pacientes, intocáveis para ela, mas acolhedoras. Ele fora testemunha de todos os amores que valeram a pena, e fora o colo a quem Lúcia recorreu toda vez que seu vestígio de esperança morria.
   (Da última vez, estava frio. Lúcia tremia. O amor era triste, o dia cinza, azul. Se prontificara a pedir ao grande amigo curandeiro algum tipo de amparo que a fizesse sentir melhor.
   Estava frio. Lúcia queria um abraço quente e confortável; a abstinência pariu um poema.)
   Sentou-se na mesma pedra em que sentara no último dia em que pediu consolo; a barra de chocolate jazia em seu colo. Como uma oferenda, abriu a embalagem acima da cabeça.
   Tinha a plena consciência de que a própria existência era reflexo manifesto da una vontade universal. E assim como todos os lugares e todas as coisas e todas as pessoas são feitas de matéria que flui hora ou outra de uma existência a outra, fez, como faria a algo que significava o próprio significado, a oferenda à vontade obscura e subconsciente de seu eu.
   (Houve uma noite triste em que estivera naquele lugar só e apenas a existência do amigo bastou para que soubesse que só tinha a melhor companhia.)
   A primeira mordida que deu no chocolate preencheu toda a cavidade da boca, passeando e estimulando as papilas gustativas com a intensidade suficiente para que Lúcia fechasse os olhos e deixasse que apenas o chocolate existisse, e depois, que corpo e chocolate e o local e a mente e o melhor amigo (que era parte da mente) se tornassem um.
   Enquanto comer fosse a vontade e chocolate fosse o que a satisfaria, Lúcia deixou que o corpo inteiro fosse a vontade, e comeu amando o leite e o cacau e a fábrica e todos as outras variantes desconhecidas que tornavam possível aquele comer erótico do qual o chocolate foi feito vítima.
   E naquele momento, o chocolate se fez o melhor amigo, e guardião de suas mágoas e seus amores e sua magia, e o chocolate foi testemunha de toda a informação mnemônica que caracterizava Lúcia como uma existência aparta do todo.
   Lúcia deixou que a carne fosse o altar, e o chocolate a oferenda, e a oferenda, carne, e a carne, deus.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Nota sobre a nota

Todos os dias eu acordo cansada
Do sol batendo na minha cara,
De viver inacordada.

No início, era o sangue
Mesclado com o da minha mãe,
Mestiço,
Era a dor paulatina,
O sangue do espermatozoide
Fadado à ruína.
No início era bom
Devanear a constância
Das alegrias,
Da infância.

Todos os dias eu acordo cansada
E esperança eu tenho
Em nada.

O sangue, meu sangue,
Era travesso,
Em ralados e cortes
E cascas de ferida
Vertia,
Fluía,
Em plena alforria,
A vida.
No início, era o sangue,
Louco, desenfreado,
Transportando a decadência
Em um coração desorientado.
Feito platéia da desgraça,
Batia menos,
Cada vez mais lento,
Cada vez mais fraco.

Todos os dias eu acordo cansada,
Eu não me lembro do som
Da minha risada.
Tenho feridas abertas
Que cauterizam devagar
Na água salgada do mar,
Meu sangue toca o subconsciente
                    [coletivo,
A alma de todas as dores além da minha,
E cada alma oceânica.

Todos os dias eu acordo cansada
Da luz da TV bater na minha retina.
Na TV parece lindo ser feliz,
Até acho que é moda,
Mas ainda sou aquariana.
O que quero dos sonhos que me
                    [vendem,
Da vida que me atiram
Pra ter que ouvir
"Mas você gostaria se tivessem te
                    [abortado?"
Meus objetivos todos
São qualquer coisa de um futuro
                    [tanto faz.

Quando eu crescer, não quero ser
                    [ninguém.
Nem sei se quero crescer
Nem se quero ser
Humano são
Na existência hormonal
Da compulsão
De qualquer sangue.

Todos os dias acordo cansada
De procurar um sentimento
Ou sensação diferente.
Quanto mais fácil, pior a qualidade,
Quanto mais difícil, menos eu me esforço,
Quanto mais veia, menos sangue,
O MEU sangue nunca foi meu.
Talvez eu queira uma conexão forte
Com nada.

No início, era o sangue,
Meus dias são uma constante contagem regressiva,
E o sangue, meu sangue,
Que já me manteve viva
Marcava minha pele corrompida,
No último papel de carta
Que foi minha despedida.
No fim, era o sangue,
Meu sangue,
Misturado ao de ninguém,
E acordei cansada.

sábado, 16 de janeiro de 2016

Metaformose inartificial

A mãe não morreu,
Os olhos se abrem delineados
Como todos os olhos;
Não é fraca,
Ossos quarentas de ex atleta
Aguardando a osteoporose;
Não é rejeitada,
O ventre,
Pela barriga lipada
E a virilha raspada
Não se cansa de parir;
Suas crianças mimadas
Fazem volume
Ao mundo
E não dizem nada,
Criam movimento
Entre uma rua e outra,
São novas mães
Delineadas,
Atléticas,
Comidas,
Lipadas,
Raspadas,
Cruéis
Ao esnobarem o que conseguem
Com seus documentos padrão,
Mimadas.

Tudo foi sempre assim
E funcionou,
Felizes
Como os filmes artificiais,
E comerciais de margarina
                    [artificiais,
E seus corpos artificiais,
E a invenção de tecnologia
                    [controladora da
                    felicidade
Como tamanhos de roupas
E tamanhos de pênis
E espelhos
E tons de cabelo normais
E sabonetes para espinhas
E delineadores
E academias
E lipoaspirações
E o sexo qualquer jeito e agradaça,
(Você é desejável)
E depilações
E a reprodução
E a comparação
Entre bilhões e bilhões de pessoas
Tentando ser iguais.

As borboletas mecânicas
Têm cor,
Têm forma,
Têm mercado,
Têm embalagem,
Têm concorrência,
Têm função
De produzir mais,
Satisfazer os financiadores,
De parir
Mais e mais
Borboletas mecânicas
Instruídas
A rejeitar o que não servir
Ao controle de qualidade.

Nos murais da vergonha,
Do dejeto,
Do obscuro,
Da violência
Vivem, órfãs,
Todas com as mães vivas
(E delineadas,
E depiladas),
Escondidas da vergonha,
Chorando nos banheiros,
Nas valetas,
Nos bancos desocupados
Em meio ao volume
De borboletas mecânicas,
Sós em meio ao volume,
Em seus casulos, recolhidas,
As filhas tortas
De olhos que não são delineados,
Porque borram;
De corpos não padronizados,
Porque são suficientes;
Não rejeitadas,
Mas inocentes;
De barrigas não lipadas,
Em formas lindas
E virilhas não raspadas
Porque têm alergia.

As borboletas não automatizadas
Circulam
Sem rota que não a liberdade
Onde não são incômodo
Às rotas de massas de asas
                    [mecânicas,
Ocupam os lugares vazios de fora
Aumentam os lugares vazios de
                    [dentro
Vez ou outra com suas asas de seda
Mutiladas
Multi escaras,
Ou casulos violados
Ao bater sem querer
Com as asas em roupas que não
                    [servem,
Com o corpo vendido a
                    [consumidores de
                     borboletas mecânicas,
E em cabelos perfeitos,
E em rostos lisos,
E em olhares delineados,
E em corpos malhados,
E barrigas lipadas,
E predadores sedentos,
E virilhas lisas,
E o medo
De serem as últimas da espécie
Entre a solidão do abandono
Das mães vivas e mecânicas
E a necesssidade de compreender
E absorver
Toda a informação,
Aceitar a rejeição
Do controle de qualidade,
E a precocidade
Da pressão
De deixar o casulo
E viver fugindo
E escondendo o rosto dos
                    [predadores
Para não sentir dor além da do fardo
De viver insolicitamente
À margem do volume.

As borboletas não automatizadas
Não têm cor,
São negras, amarelas, vermelhas e
                    [azuis;
Não têm forma,
Algumas têm asas largas,
Outras, finas,
Outras, pontudas;
Não têm mercado
Senão a liberdade;
Não têm embalagem,
Pois voam nuas;
Não têm concorrência,
E sim amizade;
Não tem propósito
Nem garantia
E por isso insistem em querer
                    [expirar cedo.

As borboletas não automatizadas
São formosas
E se conectam umas
Com a dor das outras,
As borboletas mecânicas
São uma mentira
Contada a toda lagarta.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Persephone

I'm sorry
For loving you,
My heart is a never landing boat
I'm a neverlanding dreamer,
Your heart was an ever warming
                    [coat
And I love being cold.

I'm sorry
For knowing the taste
Of fear
Of this game, unfair,
For knowing the taste of despair,
For being a freak.
You'll never know
The risk it all takes.

I'm broken,
I hope someday you'll understand
I can't let my love flow,
I can't be the one to break you,
Can never be the one to show,
How deep,
How dirty,
How scary,
How dead I've been.

There's no life after love,
You shouldn't let me kill you
Just because I'm dead.
No Persephone I will ever have.
I can never land on beautiful places
For they're only beautiful alone.

I'm sorry,
I should never have kissed him,
But I have a never landing heart,
An ever hiding, running, ruining
                    [boat,
Freak me,
I should never have lead it
To a hurt or getting hurt war.
I'm sorry, it hurts me too
The thought
Of hurting you.

Leave me
Before you know
My monsters,
My demons,
Just leave me
So I can never let you down.

domingo, 10 de janeiro de 2016

"Mas sim, senhor!"

Sou espectadora
Da chuva de verão,
Toda a chuva a descer:
Eu também quero chover
Quando além da chuva tudo
                    [escorre.
Flui a energia de dentro,
Sempre pra fora, até a vida,
Tudo morre.

Um a um,
Entre as flores:
Meus pilares,
Meus amores.

O velho tinha medo de morrer
E deixar a gente no desespero
E só,
Mais nada,
Conversar pra quê?

(Há um lugar que eu odeio,
Aonde tudo o que foi
Nunca mais voltou,
Porque ele veio do submundo
Sem a alma,
Sem a luz,
Há um lugar que eu odeio,
Aonde tudo o que vai
Nunca mais voltará)

O velho era ríspido
Ao amanhecer,
Ah, era, "sim senhor",
Mas o calor
Até a aurora
Derretia a manteiga de cima da
                    [mesa
E ele se preocupava com a saúde do
                    [cachorro.
O velho era sério e foi doce.

O velho era velho e foi velho,
Mais velho é o meu coração
Onde não passa nada
Depois da morte,
Não, senhor.

sábado, 2 de janeiro de 2016

O pombal ferroviário

   As canelas finíssimas bambeavam ao desviar das pedras soltas de cimento para que a lama, fruto da tempestade da última noite, não respingasse por toda a perna, a saia ligeiramente curta ou os sapatos. O bebê agarrado ao colo berrava faminto. Ignácia trocou o braço em que apoiava a criança junto ao corpo para que gritasse alto no outro ouvido.
   O misto do choro e do barulho do vazio lembrava-a que há semanas o solado dos tamancos deixara de fazer "plec-plec" para fora, ressoando nas ruas, e começara a compassear a carne ardente para dentro do couro. O reflexo da luz pouca nas pedras lisas da ruela, as coloridas, decadentes e sujas construções rodoviárias do milênio passado e os postes escorrendo ferrugem ouviam, com os ouvidos que não tinham, o barulho que fazia o silêncio. Ignácia e os pontos de luz rápida verdes que antecipavam o verão tinham a pouca cabeça atormentada pelos berros, a de Ignácia mais do que pelos berros.
   Uma poça d'água teve a imagem que refletia da mística lua cheia e amarela velada por poucas nuvens borrada e trêmula quando Ignácia pisou sobre a água sem querer. Mas tudo fora de sua cabeça era tão tranquilo que não demorou para que a superfície da água voltasse a aparentar um liso tão perfeito quanto vidro sólido.
   Ignácia tinha os membros finos e desnutridos como os de quem poderia estar andando há dias procurando um lugar conhecido. E construía-se logo perante seus olhos castanhos camuflados entre a noite e a pele o beco confortável como a distância da cansativa vida anterior. A madrugada, o sereno e a lua abençoavam a vitória de deparar-se com uma casinha que, se não fosse pela pintura alaranjada, suja e descascando, alguns vasos de plantas murchas e um pouco de musgo escorrendo pelas paredes, seria exatamente igual a todas as outras. Tirou da mochila azul pastel que trazia nas costas uma mamadeira amarela com um quarto da capacidade preenchida por leite e silenciou todo o desespero que martelava de sua cabeça sem mesmo tocar os ouvidos.
   Enquanto o filho mergulhava no sono, mergulhou os olhos nas peças de formatos irregulares de cerâmica carmim desgastada que cobriam o chão de cimento -  peças que já haviam mudado de tamanho e cor, já haviam dançado e voltado a dormir nunca deixando de ser os exatos mesmos cacos de cerâmica. Nenhuma delas nunca foi confortável, todas gelavam a bunda e a muretinha com cimento texturizado que marcava o caminho da entrada do casebre e isolava a escadinha de três degraus doía nos primeiros segundos em que se reclinava a cabeça para apoiá-la nela. Fechou os olhos e misturou o próprio corpo ao silêncio para retornar a ser parte da paisagem.
   O apito e a barulheira da maquinaria do trem não rompia o silêncio que não existira no beco. Todas as portas das casas estavam abertas e tinham os caixilhos de madeira ruim e podre despedaçados em algumas partes, nenhum vidro das janelas permanecera intacto. Por dentro das janelas, pares curiosos de olhos faziam-se plateia da algazarra na ruela: homens mijavam nas paredes pixadas, pessoas gritavam ao finalmente perceber os cacos de garrafas que deslisavam por dentro da pele de seus pés descalços, pombos bicavam restos de sujeira entre os paralelepípedos da rua, pessoas jogavam os corpos nas entradas das casas, assim como fez Ignácia e gemiam baixo o pequeno segundo de conforto que unia todos os zumbis às construções abandonadas e ao único par de olhos consciente, que observou a volta de Ignácia e prestava toda a atenção no modo como dormia.
   Aquele par de olhos se escondia na janela mais distante dos trilhos do trem, na única janela de onde nunca se pôde ver mais do que um par de olhos. E pertencia a uma mulher grisalha que escondia o corpo e os sentimentos sob uma capa de cetim preto que as traças comiam aos poucos. Ela tinha os olhos mais altos de todo o beco e graças à capa que reluzia sob a mística lua cheia nunca precisou pedir a ninguém que mantivesse o olhar baixo. Ela estava profundamente interessada na reação da sua vadia de teste, imaginando desde quando Ignácia estava assim, já que demorou a voltar ao beco. Estúpido escolher justo ela, que sempre começava só quando já tivesse conseguido o dinheiro pro próximo mês.
   Ignácia abriu os olhos menos de duas horas depois de fechá-los. Estava certa de ter ouvido o maldito choro do bebê alto, mas ele não estava ali onde ela o havia deitado. "ONDE ESTÁ O MEU FILHO??? EU SEI QUE TEM ALGUÉM AÍ, ONDE VOCÊ ESTÁ? EU QUERO O MEU FILHO!", gritou, com toda a força que a desnutrição permitia e todo o volume que não doía na garganta arranhada de fumaça tóxica. Um homem saiu de uma casa e correu até o meio da ruela vazia, olhou para Ignácia e continuou a andar em direção ao trilho do trem.
   Uma mulher que estava caída ao lado de onde Inácia esteve riu e soltou um embaralhado de palavras incógnitas enquanto as pessoas abriam espaço, assustadas com o modo que Ignácia corria pela ruela como se estivesse vazia e não houvesse ninguém ao redor.
   O homem parou a um metro do trilho e abriu a boca para falar algo enquanto esticava um estilete queimado e enferrujado na direção de Ignácia, que parou de correr para não ser ferida e tentar negociar. As palavras de negociação não foram ouvidas porque assim como não enxergava as pessoas, Ignácia não ouvia suas vozes gritando em pânico, nem enxergava nem ouvia o trem se aproximando sem tempo de frear.
   Como os pombos deformados ainda brigavam para bicar algum resto de comida ignorando a sujeira do chão, quando o trem foi embora, um bando de zumbis semiconscientes ignorava o sangue que molhava o dinheiro do próximo mês.
   Com o novo dinheiro sujo de vermelho em uma mão e uma colher torta, um cara foi até a mulher que assistira a tudo sob uma capa de cetim puxando a conversa. "Cê sabe que ela tava gritando que alguém pego o filho dela, né, quem foi?". A mulher pegou o dinheiro e em troca deu um pacote da coisa nova que tinha acabado de testar. "Aquela vadia nunca teve um filho".

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