quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Geada antiprimaveril

As borboletas voavam longe.
Feito nome de anjo se ouvia
A dança alegórica semiaustera
Anunciando à ventania:
Vem chegando a primavera.

Aos votos que sobe o sol
Ao doce alvorecer
A vontade do oceano
Se vociferou de florecer.
Seu nome é de demônio, insistiu,
Água mole em pedra dura
Tanto bate até ceder.

Eu sou assim:
Toda corpo,
Toda cor,
Encorpando ao feitiço
O acordo omisso na minha dor.

Inverno após inverno,
Passa o tempo e eu sentada
Esperando florecer.

Mas sou assim:
Toda a torto,
Toda ator,
Incorporando meu grito omisso
Em todo botão de flor.

Meu coração é assimétrico,
É assindético,
Sintético, sem nexo,
O meu corpo, convexo,
E o plexo,
Meu cemitério de borboletas.

Só sei amar e escrever.
Misturam-se em meu sangue
Esse não saber tão pulsante
Entre a ferida aberta berrante
Que me faz aberração.

Era mais fácil quando eu só sabia escrever.

Vou ouvindo o oceano
Engolir a primavera,
Digerir as borboletas,
Ainda não é tempo.
Agente do meu aparto esbanjo
É meu nome de anjo afastado ao eterno
Do segundo primeiro dia de inverno.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Lágrimas de uva

Uma silhueta se deixa derramar sobre a
                   [minha parede dos fundos.
É inesperada,
É desesperada,
É desumana.
Trôpega ao inequilibrar suas formas,
É uma silhueta narcisina,
E invasiva
E masculina.

Um ego mimado,
Arquetípico,
Arquejado,
Arrastando-se de sombra em sombra na
                   [minha parede
Narciso inconciso,
Cansado
E com sede.

O álcool na minha boca não é licença
Pra sombrear-se esse vulto alcoólico
Fedendo ao vinho mais barato da
                   [dispensa.
Nem a necessidade de barulho
Do disfarce maltrapilho,
Pedante,
Insignificante
É mais importante que a paz do meu
                   [silêncio.

É vulto de amor barato,
Destroçado,
Distorcido,
Chorando suas lágrimas de uva
Feito estanco
Vertendo podridão
No meu tecido branco.

Esse amor insatisfeito, invasivo,
                   [imperfeito,
Não é amor,
É projeção que se esconde,
É sede,
É um vulto atirado
À minha parede.

Não vou assumir sua taça
Desprotegida,
Estilhaçada,
Espairecida
Como se amor significasse a sombra
Ou significasse cada lágrima derramada
Ou significasse,
Ma(i)s nada.

domingo, 10 de julho de 2016

O véu de Valquiria

É tão estranho mostrar meu rosto... Eu, que tenho sido uma sombra terrivelmente apaixonante, um lobo mascarado, um martírio suicida.
Deixei-me sucumbir a uma ridícula paixão adolescente ou simplesmente cresci? Talvez ambas as hipóteses sejam válidas.
Ela nunca me quis morto, quem o quisera era eu.
Valquíria talvez me tenha amado. E ela nunca precisou de nada senão de palavras.  Refiro-me àquele tipo de rima apaixonada que em métrica exata comovia o mais frio coração (leia-se o meu coração).
E talvez de sua carne não se tivesse saciado meu ódio quando encontrei seus olhos, ternos e temerosos, sob o véu negro do mistério que a envolvia.
Seu nome, desconhecido, enegrecia aquele véu do diabo, enquanto seu toque,  abstinente de alguma resposta, selava-o agora a minha face, uma vez que o rosto da dama se deixara revelar.
E eu, nos braços de Valquíria,  apeguei-me ao disfarce de lobo mau quando por dentro ela me fizera sentir um mero cordeiro. Adicionando uma dose de realidade, por dentro eu era uma ovelha negra.
Eu tinha aquela rebeldia jovem, o espírito ateu moderno,  a vontade de não mais ter vontades. Eu tinha a mim, a Valquíria e a meus pensamentos suicidas.
E como que por dó de mim o suicídio nao tardou a responder-me.
A bofetada que partiu de minha mão dirigia-se ao rosto, mas foi interceptada pelo véu do sigilo de Valquíria.
Aquele véu... Maldito véu. Mal-dit-o-véu. Malditos véu, máscara, pele de lobo, rosto oculto. Aquele era o véu que me impunha respeito, mistério, temor, mas essa admiração não era imposta por mim, e sim pela dama que tecia o véu junto à sombra de minha mente.
Então, deixei que meus olhos se enchessem das mais odiantes lágrimas e cuidei para que a raiva borbulhasse pelos dentes lupinos que traziam-me à realidade.
Não que ela me quisesse mal. Ela entendia que assim que alguém quebrasse meu anonimato eu já não seria mais aquele espírito jovem.
Eu certamente a perdoei.
Mas seria impossível perdoar a mim mesmo com aquela seda vexaminosa.
Com um golpe rasguei o pano preto da vergonha. Abracei a morte. Larguei a pele. Deixei Valquíria. Apesar de sentir-me inseguro, mostrei o rosto.

domingo, 19 de junho de 2016

Todas as cores do escuro

Tinha medo das luzes e do peso dos
                    [cabelos:
Agora, mais nenhum fio tem a marca dos
                    [dedos,
Só algum suspiro de reflexo
Que espelhou o anoitecer
Ou o lamento desconexo
Que cada vez mais se quis desconhecer.
Quanto mais andava à sombra, menos a cor aparecia.

Tinha medo das luzes noturnas
Que embonitavam a noite.
"Ô, menina, mais bonito é teu sorriso,"
Ouvira em tom liso
Ou virou mesmo é uma louca.
As cores! Sim, há algo a misturar nelas
Que se destacam na luz pouca.
Ainda é luz, menina, ainda é vida.

Vestiu aquela imagem como se
                    [projetando na alma
Não estivesse almejando
Ou se na pouca luz míope
Enxergaria alguma face
Ou se o novo casaco a disfarçar o frio nos
                    [ombros
Também não pesasse.

As mesmas luzes ainda revelavam
Aquele cansaço que a ela escorria
Desde o luar, já não reflete mais
O frustrante fardo da tela vazia.
O rosto era líquido como os olhos tristes
Que vertiam o azul de uma aquarela suja.
Tinha mágoa das cores de fundo de nada,
Da garota do espelho,
E de sua cara de preocupada:
Eu não vejo cores,
Eu não vejo a mim,
Eu já nem vejo,
Só deixo borrar.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Haciaré

Hasta el cielo
Hundirse a la cabeza,
Hasta el morir del pensamiento que me
                    [empieza,
Pensaré.
Hacía marcarme el viento,
Libre como soy hacia el cuerpo
Y fijo hacia mi cabeza.

Hasta los infiernos
Hundirense a mis pies
Como las raíces de los cerezos míos
A doler en mi fuego de colores fríos,
Me solerá el tiempo,
Me lunara todo lo que existe,
Todo lo que es daño,
Todo lo que extraño.

Soñaré,
Firmaré.

Hasta el cielo
Hundirse a los infiernos,
Haciaré.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Bis Morgen

O passado é estático.
Eu não creio no futuro,
Nem em qualquer projeção estética
Nem surrealismo imprático.
Bis Morgen,
Depois de agora existirá o limbo.

A gente não tinha coesão,
A ferida se abria,
Eu só não queria
Dar os pontos,
Por suas abrangências,
Nem vírgulas,
E dei reticências.
O chamado soou, eu tinha um pé no
                    [barco,
Vi a espuma confusa em meu Leviatã.
Bis Morgen, pensei,
Eu não acredito no amanhã.

Eu queria um jeito de garantir
Que aquele corpo era seguro,
Que havia futuro.
Eu sabia as respostas,
     (Você não vai me dar tchau direito?)
Eu virei minhas costas,
E quando me dei conta de que seria a
                    [última vez,
Aquele corpo inseguro,
O meu porto perjuro,
Andava de costas, vestia uniforme
E eu não tenho uma última lembrança
Daquele olhar.
Quando me dei conta e virei para trás,
Disse o corvo: nunca mais!
Bis Morgen, tive raiva e não disse.

Nunca disse nada:
A tristeza,
O desconforto,
A saudade,
E como se nunca tivesse amado,
Eu não disse.
Eu não acredito em futuro que não o
                    [torpor.
Bis Morgen, todos os dias adiando a dor
Transformando em limbo a solidão
Que habita o torpor entre o meu passado
E a minha paixão.

O presente é vivo e inadiável.
Deixa o futuro que te aborrece ser menor
                    [que o meu abraço.
Você nunca vai apagar a minha dor,
Mas a tornou pequena,
Quase amena,
Inferior.
Me ajuda a retribuir, porque quero dizer:
O amor existe,
Eu te amo,
Como se nada nunca fosse triste
Desconfortável,
Nostálgico.
Me diz: Bis Morgen, mein Herz,
Porque vai ser um limbo viver sem você
                    [até amanhã.

E vou dizer tudo,
Vou dizer desesperadamente,
Porque sinto demais,
Ressinto demais
E não quero sentir muito:
Eu te amo.
Vou sentir sua falta todos os segundos
Até que chegue uma nova manhã.

Toda vez que você vai embora
O tempo não passa,
E se até ele que é todo sente essa saudade
                    [fatal,
Que faço, se sou só eu,
Jaz-viva mortal?

Toda vez que você vai embora,
Bis Morgen, mein Herz.
Você me faz ter esperança no amanhã.

terça-feira, 5 de abril de 2016

O altar de carne

   Lúcia sentou-se em frente ao seu melhor amigo. Havia caminhado na brisa fria e deliciosa da manhã para vê-lo, vez ou outra desviando da garota fina e gelada. Carregara até seu local preferido da cidade uma barra de seu chocolate favorito como uma procissão carregaria a hóstia.
   Agradecia a presença do amigo, ele fora testemunha de sua vida. O crescimento, o amadurecimento, as camélias que caíam. Suas dores todas foram choradas frente às pernas cruzadas e pacientes, intocáveis para ela, mas acolhedoras. Ele fora testemunha de todos os amores que valeram a pena, e fora o colo a quem Lúcia recorreu toda vez que seu vestígio de esperança morria.
   (Da última vez, estava frio. Lúcia tremia. O amor era triste, o dia cinza, azul. Se prontificara a pedir ao grande amigo curandeiro algum tipo de amparo que a fizesse sentir melhor.
   Estava frio. Lúcia queria um abraço quente e confortável; a abstinência pariu um poema.)
   Sentou-se na mesma pedra em que sentara no último dia em que pediu consolo; a barra de chocolate jazia em seu colo. Como uma oferenda, abriu a embalagem acima da cabeça.
   Tinha a plena consciência de que a própria existência era reflexo manifesto da una vontade universal. E assim como todos os lugares e todas as coisas e todas as pessoas são feitas de matéria que flui hora ou outra de uma existência a outra, fez, como faria a algo que significava o próprio significado, a oferenda à vontade obscura e subconsciente de seu eu.
   (Houve uma noite triste em que estivera naquele lugar só e apenas a existência do amigo bastou para que soubesse que só tinha a melhor companhia.)
   A primeira mordida que deu no chocolate preencheu toda a cavidade da boca, passeando e estimulando as papilas gustativas com a intensidade suficiente para que Lúcia fechasse os olhos e deixasse que apenas o chocolate existisse, e depois, que corpo e chocolate e o local e a mente e o melhor amigo (que era parte da mente) se tornassem um.
   Enquanto comer fosse a vontade e chocolate fosse o que a satisfaria, Lúcia deixou que o corpo inteiro fosse a vontade, e comeu amando o leite e o cacau e a fábrica e todos as outras variantes desconhecidas que tornavam possível aquele comer erótico do qual o chocolate foi feito vítima.
   E naquele momento, o chocolate se fez o melhor amigo, e guardião de suas mágoas e seus amores e sua magia, e o chocolate foi testemunha de toda a informação mnemônica que caracterizava Lúcia como uma existência aparta do todo.
   Lúcia deixou que a carne fosse o altar, e o chocolate a oferenda, e a oferenda, carne, e a carne, deus.