sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Recanto

Como um flagelo de vida
Que anda pelas ruas
Conhecendo lugares vazios
Como o curso de oceano
Que flui pelos meus rios
Eu era submersa
Num muro de mim
Em cada conversa.

Como uma pedra de gelo
Derretendo meu fogo
Eu me sinto em paz
Sentindo o bem que você me faz
Submergindo do fictício,
Amo tuas feições, teu amor, teu feitiço,
Meus finos flagelos de gelo
Descobrindo a superfície.

Como um abraço quente,
Você me despe da carne
Eul só os teus braços confortam a minha
                    [alma,
Que é como um quebra-cabeça,
Ou como as estrelas,
Que só se alinham no fundo o teu olhar.

Eu não sei me portar diante dessa luz
Como não sei medir o quanto te amo.
Tudo em volta parece falso,
Menos você, meu conforto,
Meu círculo de amor
Centrando o caos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Pagu

   Para a autora, o nome era primordial, portanto, um ou dois nomes universais para todos os personagens eram bem cabidos. Mas ainda assim, acima do nome está a crônica, e para eles, que são aquele empurrãozinho que às vezes falta de escrever, essências pútridas das linhas que bem poderiam não existir, o nome não era importante, desde que se fizesse questão de demarcar que a protagonista era uma "ela".
   Ela lembrava bem da cara do pai quando chegou em casa e a viu toda pronta. "Vai sair?" quis saber o pai, já constatando a resposta."Vou", respondeu. Havia esperado o primeiro sol depois do inverno para vestir a personalidade sensual e misteriosa, descoberta em lugares estratégicamente provocantes e não deixando a mostra nada daquilo que preferia desfrutar em íntima privacidade.
   Feliz portadora de um corpo e tanto, ela saiu com o corpo e o amor, e enquanto raiava o sol, foi toda corpo e toda amor. Porém, como são todas as mulheres de personalidade sensual bruxas, e são todas as bruxas filhas da lua, à primeira instância da noite a bruxa deixou de ser amor e corpo e se tornou poder e alma.
   Almejava mais que tudo o poder. O poder de caminhar com o queixo erguido, o poder imenso do rebolado do corpo provocante quase imperceptível entre o negro da roupa e o da noite, o poder ser só bruxa e alma e noite, o poder chegar em casa sem menos poder, nem menos roupa, nem menos corpo.
   Até que viu, numa das ruas sem saída que atravessava pelo caminho, um grupo de cinco "eles" que, somando as idades, não se chegava a 65, pedalando devagar em seus instrumentos que eram como extensão do instrumento. Continuou andando, mentalizou o poder da lua e nada de ruim poderia acontecer. Até que depois de ver, ouviu.
   O "psiu" e o "ei, gata" se fizeram ouvir mais baixo que os barulhos das correntes de bicicleta. E tão baixo quanto são baixos cinco "eles" perante a lua. Baixo como são baixos eles que precisam andar em cinco. Tão baixo como é baixo o ollhar de quem enxerga corpo, mas não enxerga alma e poder.
   A mão que soltou do guidão para apalpar a bunda era só uma mão, e aquele "ele", só um corpo, enquanto ela, bruxa e filha da lua, já era alma e poder e feitiço.
   Ela continuou andando, poderosa e com o queixo erguido, bruxa, e sabendo que sabia ser amor, e muito mais do que só corpo como era apenas corpo aquela mão após o toque. Chegaria inteira, chegaria bem.
   Até que o feitiço surtiu efeito e, a três metros de onde a bruxa estava, a lua devolveu a moléstia e derrubou a correia da bicicleta do último dos cinco "eles". "Ela" sorriu, e os outros baixos que eram ainda mais baixos tendo um elemento a menos, aceleraram a pedalada e sumiram longe.
   Cinco passos bastaram para que ela, ainda sorrindo, se aproximasse do moleque caído que até tentou fugir, mas não conseguiu arrumar a correia.
   E sorrindo, como sorria a alma muito maior que o corpo, bruxa, ela perguntou:
"Você se machucou? Precisa de ajuda? Quer que eu ligue pra sua mãe?".

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Geada antiprimaveril

As borboletas voavam longe.
Feito nome de anjo se ouvia
A dança alegórica semiaustera
Anunciando à ventania:
Vem chegando a primavera.

Aos votos que sobe o sol
Ao doce alvorecer
A vontade do oceano
Se vociferou de florecer.
Seu nome é de demônio, insistiu,
Água mole em pedra dura
Tanto bate até ceder.

Eu sou assim:
Toda corpo,
Toda cor,
Encorpando ao feitiço
O acordo omisso na minha dor.

Inverno após inverno,
Passa o tempo e eu sentada
Esperando florecer.

Mas sou assim:
Toda a torto,
Toda ator,
Incorporando meu grito omisso
Em todo botão de flor.

Meu coração é assimétrico,
É assindético,
Sintético, sem nexo,
O meu corpo, convexo,
E o plexo,
Meu cemitério de borboletas.

Só sei amar e escrever.
Misturam-se em meu sangue
Esse não saber tão pulsante
Entre a ferida aberta berrante
Que me faz aberração.

Era mais fácil quando eu só sabia escrever.

Vou ouvindo o oceano
Engolir a primavera,
Digerir as borboletas,
Ainda não é tempo.
Agente do meu aparto esbanjo
É meu nome de anjo afastado ao eterno
Do segundo primeiro dia de inverno.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Lágrimas de uva

Uma silhueta se deixa derramar sobre a
                   [minha parede dos fundos.
É inesperada,
É desesperada,
É desumana.
Trôpega ao inequilibrar suas formas,
É uma silhueta narcisina,
E invasiva
E masculina.

Um ego mimado,
Arquetípico,
Arquejado,
Arrastando-se de sombra em sombra na
                   [minha parede
Narciso inconciso,
Cansado
E com sede.

O álcool na minha boca não é licença
Pra sombrear-se esse vulto alcoólico
Fedendo ao vinho mais barato da
                   [dispensa.
Nem a necessidade de barulho
Do disfarce maltrapilho,
Pedante,
Insignificante
É mais importante que a paz do meu
                   [silêncio.

É vulto de amor barato,
Destroçado,
Distorcido,
Chorando suas lágrimas de uva
Feito estanco
Vertendo podridão
No meu tecido branco.

Esse amor insatisfeito, invasivo,
                   [imperfeito,
Não é amor,
É projeção que se esconde,
É sede,
É um vulto atirado
À minha parede.

Não vou assumir sua taça
Desprotegida,
Estilhaçada,
Espairecida
Como se amor significasse a sombra
Ou significasse cada lágrima derramada
Ou significasse,
Ma(i)s nada.

domingo, 10 de julho de 2016

O véu de Valquiria

É tão estranho mostrar meu rosto... Eu, que tenho sido uma sombra terrivelmente apaixonante, um lobo mascarado, um martírio suicida.
Deixei-me sucumbir a uma ridícula paixão adolescente ou simplesmente cresci? Talvez ambas as hipóteses sejam válidas.
Ela nunca me quis morto, quem o quisera era eu.
Valquíria talvez me tenha amado. E ela nunca precisou de nada senão de palavras.  Refiro-me àquele tipo de rima apaixonada que em métrica exata comovia o mais frio coração (leia-se o meu coração).
E talvez de sua carne não se tivesse saciado meu ódio quando encontrei seus olhos, ternos e temerosos, sob o véu negro do mistério que a envolvia.
Seu nome, desconhecido, enegrecia aquele véu do diabo, enquanto seu toque,  abstinente de alguma resposta, selava-o agora a minha face, uma vez que o rosto da dama se deixara revelar.
E eu, nos braços de Valquíria,  apeguei-me ao disfarce de lobo mau quando por dentro ela me fizera sentir um mero cordeiro. Adicionando uma dose de realidade, por dentro eu era uma ovelha negra.
Eu tinha aquela rebeldia jovem, o espírito ateu moderno,  a vontade de não mais ter vontades. Eu tinha a mim, a Valquíria e a meus pensamentos suicidas.
E como que por dó de mim o suicídio nao tardou a responder-me.
A bofetada que partiu de minha mão dirigia-se ao rosto, mas foi interceptada pelo véu do sigilo de Valquíria.
Aquele véu... Maldito véu. Mal-dit-o-véu. Malditos véu, máscara, pele de lobo, rosto oculto. Aquele era o véu que me impunha respeito, mistério, temor, mas essa admiração não era imposta por mim, e sim pela dama que tecia o véu junto à sombra de minha mente.
Então, deixei que meus olhos se enchessem das mais odiantes lágrimas e cuidei para que a raiva borbulhasse pelos dentes lupinos que traziam-me à realidade.
Não que ela me quisesse mal. Ela entendia que assim que alguém quebrasse meu anonimato eu já não seria mais aquele espírito jovem.
Eu certamente a perdoei.
Mas seria impossível perdoar a mim mesmo com aquela seda vexaminosa.
Com um golpe rasguei o pano preto da vergonha. Abracei a morte. Larguei a pele. Deixei Valquíria. Apesar de sentir-me inseguro, mostrei o rosto.

domingo, 19 de junho de 2016

Todas as cores do escuro

Tinha medo das luzes e do peso dos
                    [cabelos:
Agora, mais nenhum fio tem a marca dos
                    [dedos,
Só algum suspiro de reflexo
Que espelhou o anoitecer
Ou o lamento desconexo
Que cada vez mais se quis desconhecer.
Quanto mais andava à sombra, menos a cor aparecia.

Tinha medo das luzes noturnas
Que embonitavam a noite.
"Ô, menina, mais bonito é teu sorriso,"
Ouvira em tom liso
Ou virou mesmo é uma louca.
As cores! Sim, há algo a misturar nelas
Que se destacam na luz pouca.
Ainda é luz, menina, ainda é vida.

Vestiu aquela imagem como se
                    [projetando na alma
Não estivesse almejando
Ou se na pouca luz míope
Enxergaria alguma face
Ou se o novo casaco a disfarçar o frio nos
                    [ombros
Também não pesasse.

As mesmas luzes ainda revelavam
Aquele cansaço que a ela escorria
Desde o luar, já não reflete mais
O frustrante fardo da tela vazia.
O rosto era líquido como os olhos tristes
Que vertiam o azul de uma aquarela suja.
Tinha mágoa das cores de fundo de nada,
Da garota do espelho,
E de sua cara de preocupada:
Eu não vejo cores,
Eu não vejo a mim,
Eu já nem vejo,
Só deixo borrar.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Haciaré

Hasta el cielo
Hundirse a la cabeza,
Hasta el morir del pensamiento que me
                    [empieza,
Pensaré.
Hacía marcarme el viento,
Libre como soy hacia el cuerpo
Y fijo hacia mi cabeza.

Hasta los infiernos
Hundirense a mis pies
Como las raíces de los cerezos míos
A doler en mi fuego de colores fríos,
Me solerá el tiempo,
Me lunara todo lo que existe,
Todo lo que es daño,
Todo lo que extraño.

Soñaré,
Firmaré.

Hasta el cielo
Hundirse a los infiernos,
Haciaré.