segunda-feira, 19 de junho de 2017

The basics of pharmacology

Now you're out.
I'm out of will,
Out of myself,
Willing any pill to get me recover
For I can't buy you at a drugstore
When you're over.

You've got some light you cannot see,
I used to breathe it.
But now that we're half lit up,
When you tell me to not give up,
Life's a light, but I can't believe it.

Still can't embrace you
For when sometimes we're over,
Still can't replace you.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Não te deixa

Não te deita
Pensando ao vazio,
Não aceita o pensamento frio,
Recusa-o ao peito,
De​ que não tens valor,
Ou beleza, ou jeito.

Eu sei que às vezes o ânimo é incerto
E que do alto, o chão
Parece mais perto,
Mas não te deixa acreditar:
Há muito mais céu entre o chão e o céu.

Não te deixa​ esquecer,
Não te larga,
Não te adia.
Não aceita a posse de toda essa carga
Que em dias ruins parece tão vazia.

Não deixa que o mundo acabe,
Eu sinto muito pelo ocorrido,
Por deixar eclipsar
A visão de sentido em tão denso pranto,
E sinto tanto
Que sei que em mim, nada acabou.

Então não me deixa
Estragar tudo,
Como em vezes quebro as coisas ao meio,
Como, de gritar, o anseio,
Como um verso.

Não te deixa baixar os olhos, porque enxergas cores lindas.

E nesse tempo de mudança,
Não deixa mudar a lembrança
Do que é o nosso abraçar.

Lembra
Que não importa a queixa
E que de ti, não há deixa.

segunda-feira, 15 de maio de 2017

ALTER EGO

Acima dos marcos, das marcas deixados
Alguma sombra reflete-se, pouca,
Ascende essa tênue luz, ainda rouca,
Reside em espasmos fracos:
Meus resíduos cacos
Ainda espalhados.

Ao passo que se fez notável,
Tirou a razão para dançar, co-moveu:
O mesmo sorriso em nossas linhas;
O abrir dos olhos;
As mãos junto às minhas;
Cada vez menos cacos refletindo a dança
Entre minha imagem e semelhança.

Espalhados, meus cacos de espelho
Aderentes à face lisa
À sombra quiseram. Formaram, criaram
Imagem concisa
Do tempo
Do sonho mais belo
Que é meu universo,
Paralelo.

ALTERA INDE,
ALTER EGO,
Que é tão outro,
Quanto mais é outro,
Menos é eu.

Como oposto a todo meu movimento
Refletia-se como não fosse espelho
O que não sou eu, nem é sombrio
Toda a luz que falta
Ao meu vazio.

Fez-se,
Fazendo sentir mais a vida,
Fazendo sentir mais,
Fazendo sentir,
Fez-se feito feixe
A luz, e vi que era boa.

Como se desequilibra a assimetria
Da imagem espelhada,
Pende a luz de um lado do vidro ao outro,
Como o desespero por respirar durante o
                                      [afogamento,
Como se completam mãos,
E olhares,
E sorrisos.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Lizzie

   Não entendia bem aquela desatenção a tudo o que fazia. Porque não tanto tempo atrás fora pinxejinha do papai, e criquinha da vovó, e seu apelido soara com um carinho contrastante se comparado ao tom de costume em tempos recentes.
   O apelido foi a primeira mudança que notou. Soava como se a chamassem pelo apelido simplesmente porque a conheciam há muito tempo e esse costume fazia seu apelido soar patético. E como, em algum lugar do mundo alguma fada morreu quando ela disse que não acreditava em fadas, também se apagou o apelido quando pareceu que as pessoas não acreditavam mais em Lizzie.
   E também houve a ocasião em que saltitava pelo parquinho e alguma outra criança olhou com o cruel desdém à infância que têm aqueles que começam a entender que já são crescidinhos.
   E reparou que suas conquistas já não eram tão conquistas; talvez, no máximo, obrigações a serem cumpridas. E cobradas. E ela sentia falta não só do brilho imaginário da coroa - e não só da coroa - de pinxejinha, mas também do pó mágico, e do colorido que têm as roupas das crianças se comparadas às cores mortas dos jovens de sua idade.
   E notou também que, diferente da língua inocente das crianças, ao falar dos jovens misturam-se também o sarcasmo e a polissemia e a pretensão, e houve a ocasião em que suas palavras chocaram-se com estas. Disse aos amigos que não queria ficar mais velha. E respondeu nesse idioma novo e cheio de sutilezas um dos amigos que alguém, em algum momento na história da humanidade, havia encontrado a fórmula para perdurar a beleza da juventude. Mas, que beleza o quê? Ela se sentia muito mais como um Peter Pan do que como uma viciada em cosméticos. Um Peter Pan chocado com a pretensão no idioma novo.
   E tanto deixou de se notar seu brilho e genialidade da infância, que ela também desacreditou que existiram.
   Mas é claro que a maioria das pessoas achou tudo aquilo uma tragédia absurda, uma coisa que não se faz. E também teve quem achou bonito. Quando quem já tinha crescido a viu de novo, a água vermelha encobria considerável volume daquele humano adulto maior que a banheira. Não se deu conta, é claro, pois nessas alturas já não se pode dar conta de nada. Mas é fato que, em sua busca pela infância eterna, depois de banhar-se em sangue inocente, nunca mais envelheceu.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

0,000000002 fps

   As primeiras lembranças da minha vida estão dispostas num sistema de quadros mal dispostos pela vasta e desconhecida linha temporal do começo. O começo é um conceito quase indefinido, sim, porque não há evidência de que não tenha sido quando minha bisavó conheceu um cara, espanhol e bonito, por quem se apaixonou, e pelos caprichos da família teve que se casar com o italiano que foi meu bisavô, bem como não há evidência de que o começo está na juventude da mãe de minha bisavó, nem na minha avó, e nem precisamente no útero fecundado da minha mãe. E estas histórias que me precedem são feitas de lembranças com muito menos quadros que as minhas, visto que a fotografia se popularizou muito mais na parte do tempo pertinente a mim.
   Mas o começo é, precisamente, dejeto de uma fotografia da minha mãe com a barriga grande dos oito meses em evidência. E é esse o começo porque a narradora sou eu e é este o recorte que pretendo fazer.
   Não me lembro de nada, isso tudo me contaram os outros. São visões de mim: visões de um eu que não conheci, perspectivas de muitas pessoas que não são eu. Mas é apenas a partir disso que eu consigo entender onde foi que destrambelhou a minha vida.
   Dizem que o útero é confortável, nutritivo, aconchegante, e dentro dele não se tem noção do maior temor que assombra a vida: a morte. Eu não me lembro de ter nascido. Eu apenas existo, e acredito quando me dizem que nasci porque há registro de fotos de um bebê, e depois de uma criança, e depois de uma adolescente que na evolução de suas feições se parecem muito a mim. E são quadros distanciados demais para que se crie movimento suficiente para uma memória.
   A exposição à luz, à interação e à morte foram um erro imperdoável aos olhos fechados de um eu bebê. Alguns colos, por vezes, consolavam. Por outras, reinava o desalento. E hora a hora daquele estágio intransitável, começava a roçar a pele macia o tempo. A criatura egoísta, chorona, cagona e comilona entrou, então, em contato com o tempo, e este passou a doer menos, até a aquisição da linguagem e da consciência: eu sou uma criança. Não me lembro de nada, isso tudo me contaram os outros. Mas foi uma transição dolorosa.
   E a criança é rainha do mundo. E fora o nascimento, nunca se produziu angústia comparável à de ter que limpar o prato e engolir a comida que você não gosta, e de ter que limpar o bumbum sozinha depois de fazer cocô, e de não poder registrar sua expressão artística com as canetinhas na parede. Até aqui, não me lembro de nada, e relatei o que me contaram os outros.
   É mais ou menos a partir dessa transição, as memórias deixam de vir dos frames de fotografias e do que me contaram os outros, e sim da imagem aproximada que meu cérebro criou a partir de tudo o que já vi. E, embora às vezes com maior duração, nem sempre as memórias são tão contínuas como as recentes. São cenas isoladas e quadros perdidos naquilo que marcou o afogo.
   Minha primeira lembrança concreta da infância foi uma bronca que levei de meu pai. Me lembro da bronca em específico, mas não do delito. Meu pai me disse que o motivo foi a birra que eu fiz porque não quiseram comprar um chocolate, e eu não duvido.
   E quando eu tinha meus onze anos, chorava por ter que lavar a louça. E a infância nos é nostálgica porque está sempre sendo tomada uma liberdade: chega a hora de sair do útero, a hora de limpar o bumbum, a hora de ter que arrumar o quarto, e de cada vez ter direito a menos atividades prazerosas.
   A mais contraditória transição da qual tenho consciência é a da adolescência para a vida adulta. Porque chamamos a adolescência - ou a ela forçamos - "período de individualização". Mas o que nos golpeia, do nascimento à morte, é o abandono de todos os caprichos, e do tempo livre, e do nosso eu egoísta, e nos tornamos cada vez menos indivíduo e mais parte de um mecanismo maior. E na adolescência, entramos em contato com esse indivíduo anterior, para nos desassociar dele e entrar para a sociedade.
   Mas pouco a pouco mais quadros continuaram sendo produzidos mesmo apesar dessa transição conturbada que é tornar-se adulta, e alguns deles me fazem perceber que sou parte importante do mundo. Ou ao menos da parte do mundo com a que eu já tive contato; e essas são imagens que ninguém me contou: eu as captei com meus próprios olhos.
   E são cenas carinhosas, de quadros poucos, que isolam as situações em que não fui apenas eu, e sim nós. No menor número possível de quadros, é a textura macia da bochecha da minha avó e é o abraço da minha mãe. E toda a história da qual meus filhos não vão se lembrar, mas eu vou dividir com eles minhas imagens. Como, por exemplo, se eu fosse fotógrafa, eu teria registrado pra sempre o papai sorrindo pra mim de olhos fechados.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Disfunção

Há um sentido por trás da poesia e das paredes,
O objetivo uno, propósito de todas as coisas
E todos os saberes,
Na incoerência contínua
Da coexistência,
Um sentido aguçado que sabe a pimenta
- E o traço de seu sabor de meio mundo.

Impalpável,
Como o sebo que ocupa os poros, preenchendo;
Maleável,
Como o ar que preenche os pulmões nossos
E dá forma ao movimento;
Inquebrável,
Como são os tijolos
Conectados pelo cimento;
Há um sentido
Que cheguei a pensar que nunca mais sentiria,
Impalpável
Como a textura do bolo de fubá
Cuja receita morreu com a vó.

Coexiste o sentido
Como se sabe que cada coisa em cada retrato ou paisagem em movimento,
Como imagem ou substância,
É parte, por algum motivo,
De algum retrato ou paisagem em movimento;
Subsiste-se,
Química ou biologicamente, se constitui;
Como parte integrante de tudo,
Existe, e o todo flui.

Se me deixo procurar o sentido,
Eu o perco ou esqueço
Como não entendo do abacaxi meu rancor,
Nem da pimenta, meu apreço.
Tudo se desintegra perante minha tez.

O propósito é um propósito que transcende o tempo,
Mais rápido e mais devagar se movimenta
Como o pensamento que constitui
A minha placenta.
A dúvida de que tudo é real dura coisa de um minuto.
- Até que algum sentido me distraia
E eu já não pense nisso -
Mas a dúvida está ao canto,
Marcando presença no tempo omisso
Ao próprio tempo.

(A verdade de ontem é falsa,
Porque eu não lembro em detalhes do bolo que a vó fazia,
E ele não existe mais)

Impalpável,
Como o vazio preenchendo todas as coisas
E estas,
Química e biologicamente ainda coexistindo
E ainda palpáveis;
O sentido existe.

Talvez o sentido de tudo fosse o desejo,
Mas sinto
- A química me faz complacente -
Ao entender que às vezes tem textura de bolo,
E outras, tem nome de gente.

Achei que tivesse perdido
A poesia, as paredes,
O sentido
Até que o vazio primitivo
Complementou a frase sem resposta:
O verbo escrever é intransitivo.

O sentido de todas as coisas,
Sinestésico, estético,
Semercenário em minha habitagem
Está entranhado à antiacepção
De que a poesia é a maior disfunção
Da minha linguagem.



segunda-feira, 13 de março de 2017

Morrereis
Como pui a seda de vossa pompa
E derrete o gesso de vossas faces
E definha vosso império, traço a traço
E não se pode mais esticar as rugas
De vosso cansaço,
E não sabeis
Que rogais vossa praga,
Que salgais em vossa carcaça a chaga
E enxergardes reis
Nas translúcidas portas que dão para fora.

Adentro já se ouve.
Não me resta sequer irmandade.
Aos meus olhos, sois indivíduos,
Como peças de um quebra cabeça,
Um a um a nunca mais que isso,
Um a um todos reis,
Morrereis
Em vossos gritos que adentro se ouve
E afora se ignora,
Pois da vossa sede, o memento
Se marca nas rochas
Do esquecimento.

Morrereis
Como morre a caridade alheia,
Como leva o vento
Um castelo de areia.