quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Minha benção

Eis que mal disse algo.
Na verdade, calei,
Já que os calos também dóem por fora,
Embora, por dentro,
Amaldiçoei.
Bendito a maldito,
De meu bem insoluto,
Sobrava minha dor,
Do que é vivo, luto.

Meus rios desaguaram
Num vago oceano,
Meu rito, ondulado,
Das águas que incito,
Mudou o curso de tudo.
Meus rios divagaram
Num vasto oceano
E, enfim, aportei.
Maldito ou bendito?
Ao bradares do peito um outro mito,
Que cor tem tua cor?
Que cor tem teu grito?

Teu grito bem disse
Minha benção, não minto:
Tens todas as cores
Das águas que sinto.
Maldito, bendito,
De tudo o que medito
O saldo é o amor,
Meu amor é infinito.

Maldito, bendito,
De tudo o que é bonito,
Tu és meu amor,
E no amor, acredito.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A mãe e o mar

   A barra do longo vestido de canga azul quase se arrastava pela areia junto com os pés. Lúcia encarou o vasto mar escuro. Nem a maresia gelada que empurrava a água em suas violentas ondas até a praia, nem mesmo o céu cinza nublado, nem a força com que as ondas batiam nas pedras - e nos restos enferrujados de um trapiche em ruínas - cedeu sequer um pouco de sua força ou sua imposição ao mísero olhar desafiador de um mero mortal humano.
   Como se a moça o tivesse provocado, e como se tivesse aceitado a provocação, o mar trouxe pra perto algumas de suas criaturas que beliscam, suas raízes vermelhas e alguma tábua de algum naufrágio qualquer de outrora. Dizem que o mar é azul porque reflete a cor do céu, e que o céu é azul porque esta é a cor da imensidão, mas em frente à ponta do nariz de Lúcia se esparramava pela praia um mar negro e revoltado, chicoteando as pedras e invadindo a areia, umedecendo o ar e o chão e refletindo o céu cinza escuro que ameaçava chover e trovejar e tornava a cada segundo mais perigoso desafiar as forças da natureza.
   Nem mesmo os pescadores faziam vista. Nem mesmo os cães arriscavam explorar a restinga, e junto ao mar se podia ver apenas Lúcia e todas as criaturas e coisas que pertencem ao mar.
   Lúcia tinha raiva e medo do mar. Sua alma de velho o havia visto tomar os baldinhos e as enormes fortalezas de areia que construía enquanto cantarolava, os cavaleiros e peixes-espadachim que fazia surgir na praia vazia, as sandálias, a saudade e até mesmo a paisagem. Tinha um rancor de velho, e no vazio escuro das águas negras se acreditava como um velho e desafiava o mar infrutífero.
   O brilho estonteante que viu no mar poderia ser da lua que insistia em minguar por trás das nuvens. Ou então apenas mais um peixe. Tentando compreender a figura de longe, vasculhando por entre as ondas sonoras do mar, Lúcia detectou uma voz oceânica que entoava uma antiga melodia que a garota já havia cantado à beira da praia antes. E com a ousada curiosidade dos seus tenros oito anos de idade, levantou a barra da longa bata azul que era de sua mãe e encostou o pézinho no mar. Tinha a proteção do golfinho de henna estampado ao braço, da tornozeleira de miçangas e conchas e do tererê azul claro no cabelo, e perdeu o medo da água ao entender que se parecia muito mais com o mar do que com um velho.
   Foi a dois passos da linha de arrebentação que parou para imaginar se o brilho poderia ter sido de algum espadachim retornando, ou talvez uma sereia. Já a mãe, que a observava brincar, não teve tempo de entender que para a garota, o lampejo púrpura dos céus que castigou o mar e todas as criaturas em volta parecia algum tipo encantado de magia oceânica. E junto à umidade do mar e das lágrimas, tudo o que a mãe ainda podia ver eram todas as criaturas e coisas que pertencem ao mar.

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Da porta para fora

  Desviou a pisada da tábua que range que fica depois da mesa e antes de chegar ao grande armário do casebre. A estrutura de madeira e o calor vindo das duas pequenas janelas, pelas quais mal podia entrar a maltratante luz árida do sol, transformavam o casebre de um cômodo em um forno sujeito ao clima árido semi-desértico do lado de fora.
  O cachorro pulou da cama até a tábua anteriormente evitada, que fraquejou, e ao ruído se misturou o latido enérgico que sabia que quando ela abria o armário, era sinal de que estava na hora de comer.
  Ignorou o barulho irritante da tábua e analisou o conteúdo do armário. Dá pra sobreviver pelos dois meses até que a mulher volte, pensou, e a ideia de que em dois meses teria que abrir a porta novamente para a mulher do estoque a deixou com uma leve tontura apavorada.
  Se apoiou em uma cadeira para que as pernas não cedessem, mas só conseguiu se acalmar no momento em que o cachorro choramingou e a cutucou com o focinho. É claro, amigo, você quer a sua comida, não? Abriu uma lata e a deixou ao lado do canino, que a limpou abanando o rabo. Bom garoto.
  Se serviu de sua porção humana, comeu e foi se deitar. O evento de dali a dois meses atormentou toda a parte lunar do dia, e o sono se deixou substituir por um par de bolsas de inchaço sob os olhos e muitos pares de reviradas na cama.
  O estoque diminuía com regularidade precisa, e a comida que às vezes sobrava já era suficiente para mais dois dias ao fim dos calculados dois meses.
  Foi quando faltava cerca de dez dias para o momento de abrir a porta que elas chegaram. Lúcia abriu o armário no momento da refeição, como o fazia três vezes por dia. O cachorro pulou da cama até a tábua que rangia, e foi só quando ouviu o uivo e o patejar desesperado do amigo que ela percebeu que dessa vez a tábua havia cedido. Largou a comida em qualquer lugar e puxou o amigo com a rapidez que pôde. O cachorro correu para debaixo da cama sem tocar na comida,  e não se atreveu a sair pelo que pareceu muito tempo, enquanto ela ficou a analisar de cima o vão de um metro entre o piso do casebre e o solo.
  A falta de luz no subsolo a tranquilizou, pois significava que não poderia haver comunicação com o mundo exterior. Começou a examinar a tábua partida para imaginar algum possível remendo. Um fedor nauseante de mijo e poeira vinha de baixo. Observava a ranhura na madeira quando, de súbito,  algo também vindo de baixo tapou sua visão.
  Seu rosto sentiu o arranhar de pequenas patas e o golpear aveludado e irregular, como se nele houvessem ranhuras, de uma centena de asas. Um líquido quente lhe conseguiu penetrar os olhos antes de que terminasse de vociferar o grito e empurrar a criatura para longe do rosto.
  Limpou o que pôde do líquido e abriu os olhos, que ardiam, e dos quais escorreu uma espuma opaca. Ao olhar para cima, o teto do casebre estava repleto de mariposas marrons, muitas delas mimetizando nas asas pares de olhos de animais.
  Olhou para as janelas. Nunca havia sequer mexido nas pequenas frestas por onde entrava o ar que impedia que ela e o cachorro morressem sufocados, e altas o suficiente para que ninguém da porta para fora pudesse alcançar. Para que as mariposas fossem embora, teria que abrir, devido ao tamanho padrão delas, uma fresta de no mínimo vinte centímetros e deixá-la aberta até que as aladas tivessem a boa vontade de deixar o recinto.
  As repugnantes mariposas permaneciam no teto, vez ou outra movendo suas asas e fazendo parecer que os olhos se moviam. Olhou para as janelas. Olhou para a porta. Tateou até a maçaneta e a chave para se certificar de que estava bem trancada. Estava. Se não fosse pelas asquerosas mariposas, teria sentido alívio ao checar a tranca. Nada, nem mesmo as mariposas, poderia ser tão assustador quanto o que havia da porta para fora. Decidiu não aumentar as frestas da janela.
  Incomodada ao extremo com as novas presenças, voltou ao armário, pegou sua comida, engoliu rápido e foi se deitar. Seus olhos ainda ardiam, mas Lúcia os manteve abertos, fixos às criaturas do teto, pelo tempo que pôde. Então, uma sensação desconfortável tomou conta de seu organismo. O calor pareceu se acentuar e o ar fétido era, a cada segundo, menos respirável, e a língua pareceu inchar. Uma dor na barriga a levou à conclusão de que a comida deveria estar estragada, e por isso lhe fazia mal. Em determinado momento, a dor na barriga se deixou aliviar num tipo de diarreia espessa que se espalhou plela cama. Durante uma oscilação de tempo, tudo o que viu foi o bater de algumas asas, piscares de olhos e formas estranhas.
   Lúcia acreditou ter ouvido alguns choramingos, e uivos, e latidos que cada hora pareciam mais fracos. Não teve forças para se levantar, mas sentiu as lambidas do cachorro que parecia se alimentar da diarreia espalhada pela cama. E então, acreditou ter ouvido aquilo que mais temia: as batidas na porta.
  NÃO ESTÁ NA DATA COMBINADA, AINDA FALTA UMA SEMANA. NINGUÉM VAI ENTRAR.
   Lúcia passou os próximos oito dias delirando com asas e olhos, e acordou de súbito enquanto bebia um copo de água.
   O fedor da casa dava ânsias. Estava magra, e a comida havia acabado. As mariposas haviam sumido do teto. Procurou desesperadamente, com medo de ter enlouquecido, por todas as paredes, mas elas não estavam mais lá.
   Foi quando olhou para baixo da cama que as viu se alimentando do raquítico cadáver quase em ossos do cachorro e de seus dejetos. A arcada dentária, visível sob a pele carcomida pelas mariposas, ainda estava suja de merda.
   Passou um dia a vomitar pelo cheiro, sentir fome e medo de abrir a janela para se desfazer da ossada do cachorro, até que chegou à conclusão de que teria que maldizer o atraso da senhora dos mantimentos e se alimentar até que ela chegasse.
   Então agarrou a primeira mariposa. O inseto quase a sufocou ao tentar bater as asas e cutucou asquerosamente sua língua com as patas. A textura aveludada e amarga parecia golpear o céu dá boca. Mastigou aquele bolo de patinhas e olhinhos pelos minutos que precisou para criar coragem de engolir junto com a bile que seu aparelho digestivo tentava expulsar para, em vão, impedir que ingerisse a repugnância.
  A mulher que trazia os mantimentos já havia deixado o lugar considerando interná-la em alguma clínica para gente com o mesmo tipo de problema. Mas, depois de a equipe conseguir arrombar a porta, tudo o que encontraram além dos ossos do cachorro, foram as mariposas e um cadáver, do qual se alimentavam, malcheiroso, com a carne roída e os olhos vermelhos e cheios de uma espuma opaca que levaram da porta para fora.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

O homem nos meus sonhos lúcidos

Teu lado da cama, teu rosto,
Me veio em presença disforme.
Em silêncio e ausência e vigília,
À sonolência do corpo, o coração não
                    [dorme.
À exaustão do corpo, o alpha
Noutro plano se projeta
Até encontrar o teu rosto
No meu mais profundo beta.
E dormir com a imagem clara do teu peito
                    [abraçando minhas costas,
Foi a média tentação
Beirando de um lado a lembrança
E do outro, a premonição.

sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Recanto

Como um flagelo de vida
Que anda pelas ruas
Conhecendo lugares vazios
Como o curso de oceano
Que flui pelos meus rios
Eu era submersa
Num muro de mim
Em cada conversa.

Como uma pedra de gelo
Derretendo meu fogo
Eu me sinto em paz
Sentindo o bem que você me faz
Submergindo do fictício,
Amo tuas feições, teu amor, teu feitiço,
Meus finos flagelos de gelo
Descobrindo a superfície.

Como um abraço quente,
Você me despe da carne
Eul só os teus braços confortam a minha
                    [alma,
Que é como um quebra-cabeça,
Ou como as estrelas,
Que só se alinham no fundo o teu olhar.

Eu não sei me portar diante dessa luz
Como não sei medir o quanto te amo.
Tudo em volta parece falso,
Menos você, meu conforto,
Meu círculo de amor
Centrando o caos.

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Pagu

   Para a autora, o nome era primordial, portanto, um ou dois nomes universais para todos os personagens eram bem cabidos. Mas ainda assim, acima do nome está a crônica, e para eles, que são aquele empurrãozinho que às vezes falta de escrever, essências pútridas das linhas que bem poderiam não existir, o nome não era importante, desde que se fizesse questão de demarcar que a protagonista era uma "ela".
   Ela lembrava bem da cara do pai quando chegou em casa e a viu toda pronta. "Vai sair?" quis saber o pai, já constatando a resposta."Vou", respondeu. Havia esperado o primeiro sol depois do inverno para vestir a personalidade sensual e misteriosa, descoberta em lugares estratégicamente provocantes e não deixando a mostra nada daquilo que preferia desfrutar em íntima privacidade.
   Feliz portadora de um corpo e tanto, ela saiu com o corpo e o amor, e enquanto raiava o sol, foi toda corpo e toda amor. Porém, como são todas as mulheres de personalidade sensual bruxas, e são todas as bruxas filhas da lua, à primeira instância da noite a bruxa deixou de ser amor e corpo e se tornou poder e alma.
   Almejava mais que tudo o poder. O poder de caminhar com o queixo erguido, o poder imenso do rebolado do corpo provocante quase imperceptível entre o negro da roupa e o da noite, o poder ser só bruxa e alma e noite, o poder chegar em casa sem menos poder, nem menos roupa, nem menos corpo.
   Até que viu, numa das ruas sem saída que atravessava pelo caminho, um grupo de cinco "eles" que, somando as idades, não se chegava a 65, pedalando devagar em seus instrumentos que eram como extensão do instrumento. Continuou andando, mentalizou o poder da lua e nada de ruim poderia acontecer. Até que depois de ver, ouviu.
   O "psiu" e o "ei, gata" se fizeram ouvir mais baixo que os barulhos das correntes de bicicleta. E tão baixo quanto são baixos cinco "eles" perante a lua. Baixo como são baixos eles que precisam andar em cinco. Tão baixo como é baixo o ollhar de quem enxerga corpo, mas não enxerga alma e poder.
   A mão que soltou do guidão para apalpar a bunda era só uma mão, e aquele "ele", só um corpo, enquanto ela, bruxa e filha da lua, já era alma e poder e feitiço.
   Ela continuou andando, poderosa e com o queixo erguido, bruxa, e sabendo que sabia ser amor, e muito mais do que só corpo como era apenas corpo aquela mão após o toque. Chegaria inteira, chegaria bem.
   Até que o feitiço surtiu efeito e, a três metros de onde a bruxa estava, a lua devolveu a moléstia e derrubou a correia da bicicleta do último dos cinco "eles". "Ela" sorriu, e os outros baixos que eram ainda mais baixos tendo um elemento a menos, aceleraram a pedalada e sumiram longe.
   Cinco passos bastaram para que ela, ainda sorrindo, se aproximasse do moleque caído que até tentou fugir, mas não conseguiu arrumar a correia.
   E sorrindo, como sorria a alma muito maior que o corpo, bruxa, ela perguntou:
"Você se machucou? Precisa de ajuda? Quer que eu ligue pra sua mãe?".

quarta-feira, 17 de agosto de 2016

Geada antiprimaveril

As borboletas voavam longe.
Feito nome de anjo se ouvia
A dança alegórica semiaustera
Anunciando à ventania:
Vem chegando a primavera.

Aos votos que sobe o sol
Ao doce alvorecer
A vontade do oceano
Se vociferou de florecer.
Seu nome é de demônio, insistiu,
Água mole em pedra dura
Tanto bate até ceder.

Eu sou assim:
Toda corpo,
Toda cor,
Encorpando ao feitiço
O acordo omisso na minha dor.

Inverno após inverno,
Passa o tempo e eu sentada
Esperando florecer.

Mas sou assim:
Toda a torto,
Toda ator,
Incorporando meu grito omisso
Em todo botão de flor.

Meu coração é assimétrico,
É assindético,
Sintético, sem nexo,
O meu corpo, convexo,
E o plexo,
Meu cemitério de borboletas.

Só sei amar e escrever.
Misturam-se em meu sangue
Esse não saber tão pulsante
Entre a ferida aberta berrante
Que me faz aberração.

Era mais fácil quando eu só sabia escrever.

Vou ouvindo o oceano
Engolir a primavera,
Digerir as borboletas,
Ainda não é tempo.
Agente do meu aparto esbanjo
É meu nome de anjo afastado ao eterno
Do segundo primeiro dia de inverno.