Não entendia bem aquela desatenção a tudo o que fazia. Porque não tanto tempo atrás fora pinxejinha do papai, e criquinha da vovó, e seu apelido soara com um carinho contrastante se comparado ao tom de costume em tempos recentes.
O apelido foi a primeira mudança que notou. Soava como se a chamassem pelo apelido simplesmente porque a conheciam há muito tempo e esse costume fazia seu apelido soar patético. E como, em algum lugar do mundo alguma fada morreu quando ela disse que não acreditava em fadas, também se apagou o apelido quando pareceu que as pessoas não acreditavam mais em Lizzie.
E também houve a ocasião em que saltitava pelo parquinho e alguma outra criança olhou com o cruel desdém à infância que têm aqueles que começam a entender que já são crescidinhos.
E reparou que suas conquistas já não eram tão conquistas; talvez, no máximo, obrigações a serem cumpridas. E cobradas. E ela sentia falta não só do brilho imaginário da coroa - e não só da coroa - de pinxejinha, mas também do pó mágico, e do colorido que têm as roupas das crianças se comparadas às cores mortas dos jovens de sua idade.
E notou também que, diferente da língua inocente das crianças, ao falar dos jovens misturam-se também o sarcasmo e a polissemia e a pretensão, e houve a ocasião em que suas palavras chocaram-se com estas. Disse aos amigos que não queria ficar mais velha. E respondeu nesse idioma novo e cheio de sutilezas um dos amigos que alguém, em algum momento na história da humanidade, havia encontrado a fórmula para perdurar a beleza da juventude. Mas, que beleza o quê? Ela se sentia muito mais como um Peter Pan do que como uma viciada em cosméticos. Um Peter Pan chocado com a pretensão no idioma novo.
E tanto deixou de se notar seu brilho e genialidade da infância, que ela também desacreditou que existiram.
Mas é claro que a maioria das pessoas achou tudo aquilo uma tragédia absurda, uma coisa que não se faz. E também teve quem achou bonito. Quando quem já tinha crescido a viu de novo, a água vermelha encobria considerável volume daquele humano adulto maior que a banheira. Não se deu conta, é claro, pois nessas alturas já não se pode dar conta de nada. Mas é fato que, em sua busca pela infância eterna, depois de banhar-se em sangue inocente, nunca mais envelheceu.
quarta-feira, 19 de abril de 2017
Lizzie
quarta-feira, 12 de abril de 2017
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Mas o começo é, precisamente, dejeto de uma fotografia da minha mãe com a barriga grande dos oito meses em evidência. E é esse o começo porque a narradora sou eu e é este o recorte que pretendo fazer.
Não me lembro de nada, isso tudo me contaram os outros. São visões de mim: visões de um eu que não conheci, perspectivas de muitas pessoas que não são eu. Mas é apenas a partir disso que eu consigo entender onde foi que destrambelhou a minha vida.
Dizem que o útero é confortável, nutritivo, aconchegante, e dentro dele não se tem noção do maior temor que assombra a vida: a morte. Eu não me lembro de ter nascido. Eu apenas existo, e acredito quando me dizem que nasci porque há registro de fotos de um bebê, e depois de uma criança, e depois de uma adolescente que na evolução de suas feições se parecem muito a mim. E são quadros distanciados demais para que se crie movimento suficiente para uma memória.
A exposição à luz, à interação e à morte foram um erro imperdoável aos olhos fechados de um eu bebê. Alguns colos, por vezes, consolavam. Por outras, reinava o desalento. E hora a hora daquele estágio intransitável, começava a roçar a pele macia o tempo. A criatura egoísta, chorona, cagona e comilona entrou, então, em contato com o tempo, e este passou a doer menos, até a aquisição da linguagem e da consciência: eu sou uma criança. Não me lembro de nada, isso tudo me contaram os outros. Mas foi uma transição dolorosa.
E a criança é rainha do mundo. E fora o nascimento, nunca se produziu angústia comparável à de ter que limpar o prato e engolir a comida que você não gosta, e de ter que limpar o bumbum sozinha depois de fazer cocô, e de não poder registrar sua expressão artística com as canetinhas na parede. Até aqui, não me lembro de nada, e relatei o que me contaram os outros.
É mais ou menos a partir dessa transição, as memórias deixam de vir dos frames de fotografias e do que me contaram os outros, e sim da imagem aproximada que meu cérebro criou a partir de tudo o que já vi. E, embora às vezes com maior duração, nem sempre as memórias são tão contínuas como as recentes. São cenas isoladas e quadros perdidos naquilo que marcou o afogo.
Minha primeira lembrança concreta da infância foi uma bronca que levei de meu pai. Me lembro da bronca em específico, mas não do delito. Meu pai me disse que o motivo foi a birra que eu fiz porque não quiseram comprar um chocolate, e eu não duvido.
E quando eu tinha meus onze anos, chorava por ter que lavar a louça. E a infância nos é nostálgica porque está sempre sendo tomada uma liberdade: chega a hora de sair do útero, a hora de limpar o bumbum, a hora de ter que arrumar o quarto, e de cada vez ter direito a menos atividades prazerosas.
A mais contraditória transição da qual tenho consciência é a da adolescência para a vida adulta. Porque chamamos a adolescência - ou a ela forçamos - "período de individualização". Mas o que nos golpeia, do nascimento à morte, é o abandono de todos os caprichos, e do tempo livre, e do nosso eu egoísta, e nos tornamos cada vez menos indivíduo e mais parte de um mecanismo maior. E na adolescência, entramos em contato com esse indivíduo anterior, para nos desassociar dele e entrar para a sociedade.
Mas pouco a pouco mais quadros continuaram sendo produzidos mesmo apesar dessa transição conturbada que é tornar-se adulta, e alguns deles me fazem perceber que sou parte importante do mundo. Ou ao menos da parte do mundo com a que eu já tive contato; e essas são imagens que ninguém me contou: eu as captei com meus próprios olhos.
E são cenas carinhosas, de quadros poucos, que isolam as situações em que não fui apenas eu, e sim nós. No menor número possível de quadros, é a textura macia da bochecha da minha avó e é o abraço da minha mãe. E toda a história da qual meus filhos não vão se lembrar, mas eu vou dividir com eles minhas imagens. Como, por exemplo, se eu fosse fotógrafa, eu teria registrado pra sempre o papai sorrindo pra mim de olhos fechados.
segunda-feira, 20 de março de 2017
Disfunção
O objetivo uno, propósito de todas as coisas
E todos os saberes,
Na incoerência contínua
Da coexistência,
Um sentido aguçado que sabe a pimenta
- E o traço de seu sabor de meio mundo.
Impalpável,
Como o sebo que ocupa os poros, preenchendo;
Maleável,
Como o ar que preenche os pulmões nossos
E dá forma ao movimento;
Inquebrável,
Como são os tijolos
Conectados pelo cimento;
Há um sentido
Que cheguei a pensar que nunca mais sentiria,
Impalpável
Como a textura do bolo de fubá
Cuja receita morreu com a vó.
Coexiste o sentido
Como se sabe que cada coisa em cada retrato ou paisagem em movimento,
Como imagem ou substância,
É parte, por algum motivo,
De algum retrato ou paisagem em movimento;
Subsiste-se,
Química ou biologicamente, se constitui;
Como parte integrante de tudo,
Existe, e o todo flui.
Se me deixo procurar o sentido,
Eu o perco ou esqueço
Como não entendo do abacaxi meu rancor,
Nem da pimenta, meu apreço.
Tudo se desintegra perante minha tez.
O propósito é um propósito que transcende o tempo,
Mais rápido e mais devagar se movimenta
Como o pensamento que constitui
A minha placenta.
A dúvida de que tudo é real dura coisa de um minuto.
- Até que algum sentido me distraia
E eu já não pense nisso -
Mas a dúvida está ao canto,
Marcando presença no tempo omisso
Ao próprio tempo.
(A verdade de ontem é falsa,
Porque eu não lembro em detalhes do bolo que a vó fazia,
E ele não existe mais)
Impalpável,
Como o vazio preenchendo todas as coisas
E estas,
Química e biologicamente ainda coexistindo
E ainda palpáveis;
O sentido existe.
Talvez o sentido de tudo fosse o desejo,
Mas sinto
- A química me faz complacente -
Ao entender que às vezes tem textura de bolo,
E outras, tem nome de gente.
Achei que tivesse perdido
A poesia, as paredes,
O sentido
Até que o vazio primitivo
Complementou a frase sem resposta:
O verbo escrever é intransitivo.
O sentido de todas as coisas,
Sinestésico, estético,
Semercenário em minha habitagem
Está entranhado à antiacepção
De que a poesia é a maior disfunção
Da minha linguagem.
segunda-feira, 13 de março de 2017
Morrereis
Como pui a seda de vossa pompa
E derrete o gesso de vossas faces
E definha vosso império, traço a traço
E não se pode mais esticar as rugas
De vosso cansaço,
E não sabeis
Que rogais vossa praga,
Que salgais em vossa carcaça a chaga
E enxergardes reis
Nas translúcidas portas que dão para fora.
Adentro já se ouve.
Não me resta sequer irmandade.
Aos meus olhos, sois indivíduos,
Como peças de um quebra cabeça,
Um a um a nunca mais que isso,
Um a um todos reis,
Morrereis
Em vossos gritos que adentro se ouve
E afora se ignora,
Pois da vossa sede, o memento
Se marca nas rochas
Do esquecimento.
Morrereis
Como morre a caridade alheia,
Como leva o vento
Um castelo de areia.
quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017
Minha benção
Eis que mal disse algo.
Na verdade, calei,
Já que os calos também dóem por fora,
Embora, por dentro,
Amaldiçoei.
Bendito a maldito,
De meu bem insoluto,
Sobrava minha dor,
Do que é vivo, luto.
Meus rios desaguaram
Num vago oceano,
Meu rito, ondulado,
Das águas que incito,
Mudou o curso de tudo.
Meus rios divagaram
Num vasto oceano
E, enfim, aportei.
Maldito ou bendito?
Ao bradares do peito um outro mito,
Que cor tem tua cor?
Que cor tem teu grito?
Teu grito bem disse
Minha benção, não minto:
Tens todas as cores
Das águas que sinto.
Maldito, bendito,
De tudo o que medito
O saldo é o amor,
Meu amor é infinito.
Maldito, bendito,
De tudo o que é bonito,
Tu és meu amor,
E no amor, acredito.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2017
A mãe e o mar
A barra do longo vestido de canga azul quase se arrastava pela areia junto com os pés. Lúcia encarou o vasto mar escuro. Nem a maresia gelada que empurrava a água em suas violentas ondas até a praia, nem mesmo o céu cinza nublado, nem a força com que as ondas batiam nas pedras - e nos restos enferrujados de um trapiche em ruínas - cedeu sequer um pouco de sua força ou sua imposição ao mísero olhar desafiador de um mero mortal humano.
Como se a moça o tivesse provocado, e como se tivesse aceitado a provocação, o mar trouxe pra perto algumas de suas criaturas que beliscam, suas raízes vermelhas e alguma tábua de algum naufrágio qualquer de outrora. Dizem que o mar é azul porque reflete a cor do céu, e que o céu é azul porque esta é a cor da imensidão, mas em frente à ponta do nariz de Lúcia se esparramava pela praia um mar negro e revoltado, chicoteando as pedras e invadindo a areia, umedecendo o ar e o chão e refletindo o céu cinza escuro que ameaçava chover e trovejar e tornava a cada segundo mais perigoso desafiar as forças da natureza.
Nem mesmo os pescadores faziam vista. Nem mesmo os cães arriscavam explorar a restinga, e junto ao mar se podia ver apenas Lúcia e todas as criaturas e coisas que pertencem ao mar.
Lúcia tinha raiva e medo do mar. Sua alma de velho o havia visto tomar os baldinhos e as enormes fortalezas de areia que construía enquanto cantarolava, os cavaleiros e peixes-espadachim que fazia surgir na praia vazia, as sandálias, a saudade e até mesmo a paisagem. Tinha um rancor de velho, e no vazio escuro das águas negras se acreditava como um velho e desafiava o mar infrutífero.
O brilho estonteante que viu no mar poderia ser da lua que insistia em minguar por trás das nuvens. Ou então apenas mais um peixe. Tentando compreender a figura de longe, vasculhando por entre as ondas sonoras do mar, Lúcia detectou uma voz oceânica que entoava uma antiga melodia que a garota já havia cantado à beira da praia antes. E com a ousada curiosidade dos seus tenros oito anos de idade, levantou a barra da longa bata azul que era de sua mãe e encostou o pézinho no mar. Tinha a proteção do golfinho de henna estampado ao braço, da tornozeleira de miçangas e conchas e do tererê azul claro no cabelo, e perdeu o medo da água ao entender que se parecia muito mais com o mar do que com um velho.
Foi a dois passos da linha de arrebentação que parou para imaginar se o brilho poderia ter sido de algum espadachim retornando, ou talvez uma sereia. Já a mãe, que a observava brincar, não teve tempo de entender que para a garota, o lampejo púrpura dos céus que castigou o mar e todas as criaturas em volta parecia algum tipo encantado de magia oceânica. E junto à umidade do mar e das lágrimas, tudo o que a mãe ainda podia ver eram todas as criaturas e coisas que pertencem ao mar.
terça-feira, 27 de dezembro de 2016
Da porta para fora
Desviou a pisada da tábua que range que fica depois da mesa e antes de chegar ao grande armário do casebre. A estrutura de madeira e o calor vindo das duas pequenas janelas, pelas quais mal podia entrar a maltratante luz árida do sol, transformavam o casebre de um cômodo em um forno sujeito ao clima árido semi-desértico do lado de fora.
O cachorro pulou da cama até a tábua anteriormente evitada, que fraquejou, e ao ruído se misturou o latido enérgico que sabia que quando ela abria o armário, era sinal de que estava na hora de comer.
Ignorou o barulho irritante da tábua e analisou o conteúdo do armário. Dá pra sobreviver pelos dois meses até que a mulher volte, pensou, e a ideia de que em dois meses teria que abrir a porta novamente para a mulher do estoque a deixou com uma leve tontura apavorada.
Se apoiou em uma cadeira para que as pernas não cedessem, mas só conseguiu se acalmar no momento em que o cachorro choramingou e a cutucou com o focinho. É claro, amigo, você quer a sua comida, não? Abriu uma lata e a deixou ao lado do canino, que a limpou abanando o rabo. Bom garoto.
Se serviu de sua porção humana, comeu e foi se deitar. O evento de dali a dois meses atormentou toda a parte lunar do dia, e o sono se deixou substituir por um par de bolsas de inchaço sob os olhos e muitos pares de reviradas na cama.
O estoque diminuía com regularidade precisa, e a comida que às vezes sobrava já era suficiente para mais dois dias ao fim dos calculados dois meses.
Foi quando faltava cerca de dez dias para o momento de abrir a porta que elas chegaram. Lúcia abriu o armário no momento da refeição, como o fazia três vezes por dia. O cachorro pulou da cama até a tábua que rangia, e foi só quando ouviu o uivo e o patejar desesperado do amigo que ela percebeu que dessa vez a tábua havia cedido. Largou a comida em qualquer lugar e puxou o amigo com a rapidez que pôde. O cachorro correu para debaixo da cama sem tocar na comida, e não se atreveu a sair pelo que pareceu muito tempo, enquanto ela ficou a analisar de cima o vão de um metro entre o piso do casebre e o solo.
A falta de luz no subsolo a tranquilizou, pois significava que não poderia haver comunicação com o mundo exterior. Começou a examinar a tábua partida para imaginar algum possível remendo. Um fedor nauseante de mijo e poeira vinha de baixo. Observava a ranhura na madeira quando, de súbito, algo também vindo de baixo tapou sua visão.
Seu rosto sentiu o arranhar de pequenas patas e o golpear aveludado e irregular, como se nele houvessem ranhuras, de uma centena de asas. Um líquido quente lhe conseguiu penetrar os olhos antes de que terminasse de vociferar o grito e empurrar a criatura para longe do rosto.
Limpou o que pôde do líquido e abriu os olhos, que ardiam, e dos quais escorreu uma espuma opaca. Ao olhar para cima, o teto do casebre estava repleto de mariposas marrons, muitas delas mimetizando nas asas pares de olhos de animais.
Olhou para as janelas. Nunca havia sequer mexido nas pequenas frestas por onde entrava o ar que impedia que ela e o cachorro morressem sufocados, e altas o suficiente para que ninguém da porta para fora pudesse alcançar. Para que as mariposas fossem embora, teria que abrir, devido ao tamanho padrão delas, uma fresta de no mínimo vinte centímetros e deixá-la aberta até que as aladas tivessem a boa vontade de deixar o recinto.
As repugnantes mariposas permaneciam no teto, vez ou outra movendo suas asas e fazendo parecer que os olhos se moviam. Olhou para as janelas. Olhou para a porta. Tateou até a maçaneta e a chave para se certificar de que estava bem trancada. Estava. Se não fosse pelas asquerosas mariposas, teria sentido alívio ao checar a tranca. Nada, nem mesmo as mariposas, poderia ser tão assustador quanto o que havia da porta para fora. Decidiu não aumentar as frestas da janela.
Incomodada ao extremo com as novas presenças, voltou ao armário, pegou sua comida, engoliu rápido e foi se deitar. Seus olhos ainda ardiam, mas Lúcia os manteve abertos, fixos às criaturas do teto, pelo tempo que pôde. Então, uma sensação desconfortável tomou conta de seu organismo. O calor pareceu se acentuar e o ar fétido era, a cada segundo, menos respirável, e a língua pareceu inchar. Uma dor na barriga a levou à conclusão de que a comida deveria estar estragada, e por isso lhe fazia mal. Em determinado momento, a dor na barriga se deixou aliviar num tipo de diarreia espessa que se espalhou plela cama. Durante uma oscilação de tempo, tudo o que viu foi o bater de algumas asas, piscares de olhos e formas estranhas.
Lúcia acreditou ter ouvido alguns choramingos, e uivos, e latidos que cada hora pareciam mais fracos. Não teve forças para se levantar, mas sentiu as lambidas do cachorro que parecia se alimentar da diarreia espalhada pela cama. E então, acreditou ter ouvido aquilo que mais temia: as batidas na porta.
NÃO ESTÁ NA DATA COMBINADA, AINDA FALTA UMA SEMANA. NINGUÉM VAI ENTRAR.
Lúcia passou os próximos oito dias delirando com asas e olhos, e acordou de súbito enquanto bebia um copo de água.
O fedor da casa dava ânsias. Estava magra, e a comida havia acabado. As mariposas haviam sumido do teto. Procurou desesperadamente, com medo de ter enlouquecido, por todas as paredes, mas elas não estavam mais lá.
Foi quando olhou para baixo da cama que as viu se alimentando do raquítico cadáver quase em ossos do cachorro e de seus dejetos. A arcada dentária, visível sob a pele carcomida pelas mariposas, ainda estava suja de merda.
Passou um dia a vomitar pelo cheiro, sentir fome e medo de abrir a janela para se desfazer da ossada do cachorro, até que chegou à conclusão de que teria que maldizer o atraso da senhora dos mantimentos e se alimentar até que ela chegasse.
Então agarrou a primeira mariposa. O inseto quase a sufocou ao tentar bater as asas e cutucou asquerosamente sua língua com as patas. A textura aveludada e amarga parecia golpear o céu dá boca. Mastigou aquele bolo de patinhas e olhinhos pelos minutos que precisou para criar coragem de engolir junto com a bile que seu aparelho digestivo tentava expulsar para, em vão, impedir que ingerisse a repugnância.
A mulher que trazia os mantimentos já havia deixado o lugar considerando interná-la em alguma clínica para gente com o mesmo tipo de problema. Mas, depois de a equipe conseguir arrombar a porta, tudo o que encontraram além dos ossos do cachorro, foram as mariposas e um cadáver, do qual se alimentavam, malcheiroso, com a carne roída e os olhos vermelhos e cheios de uma espuma opaca que levaram da porta para fora.
