domingo, 19 de abril de 2020

Você viveria de amor?

Porque as pessoas não vivem de amor,
Porque quando se tem fome,
Quando na escuridão
Do teu coração vazio
Brilha a chama
Do saber-se que ama,
Consome-se cada víscera etérea,
Cada tripa vazia,
A miséria devorando
A companhia.

E você, ousaria viver de amor?
Sem saber qual ocasião,
Sem saber de qual tripa
Fazer coração?
Sem saber se vai doer porque é sua
Ou porque não é,
Se todo o sangue derramado ao chão
É razão pra desnutrir o corpo teu
Seja ele o que passava por teu coração
Ou pelo meu.

Mas, quando o sangue tiver coberto
O chão,
Quando teu peito aberto
Pulsar a desnutrição,
Você se alimentaria da carcaça,
Viveria do alimento que já chamou sentimento,
Você viveria de amor?
Ousaria tocar nas feridas do amor?

Porque quem não vive de amor não ama
Não se ousa devorar a própria chama,
Mas viver de amor,
Mais do que escapar da morte,
Está além da víscera
E do corte.

Porque quando havia pão,
Vivemos de amor e de pão,
E quando houver sangue,
O amor ainda será como o pão,
E não se encontra carcaça,
Nem tripa,
Nem víscera
Onde se ousou viver de amor.
Pra viver de amor, há de encher de vida o amor, ou não se viverá.

Mas vivemos.
E se ao tentar, em meio ao desespero,
Devorar o amor para saciar-se,
O amor for feito de sonhos,
Não existe jeito de devorá-lo
Porque sonho não mata fome.
Exceto o da minha vó.
Mas de sonho se vive,
Se vive de amor.

segunda-feira, 9 de março de 2020

O homem que rasgava a luz da lua ao meio

   A enorme lua cheia amarelada no ainda diurno céu roxo não apenas se destacava de todo o movimento e beleza urbano transitando pelo campo de visão que era permitido pela janela de Francisco. Ela parecia martelar a vista, com sua robusta forma que se parecia impor à paisagem serena, oprimindo a sensação de que a tarde era agradável até aquele momento e dando aos transeuntes a sensação de que a noite ameaçava os afazeres ainda não cumpridos e que as ruas, lojas e luzes se fechariam em breve, deixando qualquer tarefa que fosse por cumprir e qualquer pessoa que ainda vagasse, sozinha. A enorme lua cheia amarelada no recente céu noturno havia paralisado Francisco em frente à janela.
   Havia uma mágoa profunda acumulada em seu coração, que vez ou outra atordoava os sentidos de Francisco sem que ele soubesse quando exatamente havia surgido, e que se pintava das cores do dia para não existir senão num pequeno canto recluso de seu coração e que se mascarava sob suas feições gentis, e a lua amarela sugava essa pestilência de seu coração para transformá-la na luz doentia que fazia Francisco refletir se, graças à lua, as pessoas que protegia de si eram capazes de enxergar no céu o seu desamparo.
   Como um espelho paralelo à mágoa, projetou-se refletido um medo de que o mundo enxergasse na figura de Francisco o monstruoso emaranhado de mágoa que seu coração bombeava a toda a extensão de suas veias. No ardente amarelo da lua, Francisco enxergou todas as coisas que escondia e das quais se envergonhava e todos seus atos falhos, e o medo que agora também era bombeado pelas veias fez seu pensamento se deixar tomar por uma raiva da lua cheia.
   Francisco fechou a janela com tanta força que seu pulso baqueou. Arrastou as cortinas pelos trilhos e atirou-se ao sofá, mas por baixo das frestas da cortina ainda podia ver a luz amarelada entranhar-se a sala, manchando o parapeito, o sofá e tentando grudar na sua pele.
   Mesmo após fechar os olhos, Francisco enxergava a figura sarcástica da lua invadindo seu imaginário, provocando-o a assumir todos os atos dos quais não se orgulhava. Francisco sentiu que a lua impiedosa não estava disposta a parar de castigar sua mente, e quase que num delírio decidiu correr até a lua para rasgá-la ao meio.
   Ao decidir levantar-se do sofá, seu pulso - que ainda doía - deu forma ao início da forma tátil mais bestial de seu desespero, e enquanto uma das unhas da mão era tocada pela luz não interrompida da lua pegava impulso para erguer o corpo, sua forma se alongou e penetrou a espuma do sofá, deixando uma cicatriz diferente dos arranhões do gato.
   Abriu a porta com o resto de humanidade que habitava seus membros, e após sair de casa todas as partes de seu corpo que ardiam feito doença com o toque amarelado da luz revelavam cicatrizes profundas de sua alma, e de cada cicatriz brotava um pedaço a mais de bestialidade na silhueta transfigurada de Francisco.
   Corria atrás da lua como se não soubesse que jamais poderia voar para alcançá-la. As mãos empurravam o chão para trás, dando impulso para que atingisse uma maior velocidade, mas forçavam sua musculatura diferente a fraquejar a cada galope.
   Foi apenas quando todos os seus músculos doíam que, perto do fim da cidade e da estrada que levava à zona rural, a lua olhou de volta para Francisco, que atirou-se para cima, tentando voar, caiu de volta contra o chão e aceitou que não haveria mais como se levantar.
   Num último esforço, Francisco estendeu as garras que partiriam a lua ao meio, mas quando a luz empregnou-se na pelagem da mão já não havia dor a ser ressentida. Olhou para seu corpo iluminado de amarelo e não parecia tão ruim assim. A luz da lua zelou até o fim da noite pelo frágil corpo atirado à grama e amparou as lágrimas do homem que não sabia mais por quê havia saído de casa, e o esquecimento transformou essa cena numa mágoa sutil, disfarçada pelas feições gentis e sorridentes do cotidiano de Francisco, uma mágoa acumulada que vez ou outra atordoava os pensamentos e que não era possível rastrear.

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2020

Parte dois, ou apenas "A mulher que procrastinação"

   O quarto era todo organizado para que qualquer etapa da vida fosse shortcuteada o mais rápido possível. Os livros na estante eram organizados de acordo com os tipos de necessidades, tinha tudo à mão. Sou autossuficiente, pensava. Sentia, como o estômago muitas vezes sentira o maltrato e como o corpo sentia falta de alguma substância vez ou outra, e, também, como sentia cada dia se findando como um a menos para viver, que era capaz do que quisesse.
   Os projetos de Lúcia se estiravam pelas luxuriosas listas de livros apenas abertos, e pelos ingredientes mais gourmet possíveis que encaravam o miojo entediados, e pelos charutos que vez ou outra aguentava fumar mais do que até a metade, e pelas manhãs não vistas ou não completas ao meio dia. Tudo era muito estático, e nem tudo tão elétrico.
   De forma alguma se sentia imatura. Adiar a vida, como pulava os prefácios dos livros e ignorava alguns ingredientes e guardava charutos cortados e esperava sempre as soluções do amanhã, era natural. E, a longo prazo, surtia o efeito de não gerar a mínima preocupação com o presente. Se morresse ali, esperando acontecer seu grandioso propósito na vida, tudo bem.
   Então vieram os lapsos. Quem notou foi a irmã, que conseguiu insistir em parar de adiar aquele almoço pra matar a saudade. Se fosse a cargo de Lúcia, seria amanhã. Escolheu aquele restaurante de comida japonesa barata da João Negrão, quase na esquina com a Marechal Deodoro. Aquele perto do prédio histórico da universidade federal. Passaram com o dia os hábitos preguiçosos, e quando a noite trouxe a sobriedade, alguma amiga da irmã perguntou o que haviam almoçado e Lúcia respondeu miojo.
   Tudo tinha seu início, mas o fim se dissipava em lapsos que poderiam ser de memória, apesar de parecer com algum limbo entre uma manhã e outra que roía inesperadamente o tempo. E talvez a partir daí a existência se tornou incomum, e a não inércia, paranormal. Como os livros tinham mais ordem do que curiosidade, e a comida, mais automação que criatividade, e o fumo, mais vício que prazer, e a vida, mais existência do que ação, tudo era bem delimitado, e as variantes eram pura blasfêmia.
   Alguma coisa ou outra aparecia em lugares da casa diferentes dos costumeiros, mas a obra do sobrenatural tinha outros atalhos para ser amenizada. E para cada vela que acendia em oferenda, projetava-se sobre a parede uma nova sombra a andarilhar e espalhar golpes cruéis aos seus olhos pela casa. Até mesmo o espelho foi tapado com um lençol velho para que as formas indignas de vida da casa parassem de se refletir sorridentes. Os deuses, e essa é a opinião da autora, deveriam misericordiar-se da alma penada que trazia tanta confusão e impedia que qualquer início se terminasse antes da paz mental.
   O fervor, nunca imaturo, de tentar manter os vícios e o cérebro condicionado, criava a ilusão do destino, e quanto mais a sensação grega de fardo humano pesava sobre a vida inerte, mais pesavam as lágrimas incompreendidas. Como sua mente tecia o enxoval de planos, os vícios desfaziam a concretude de cada meta, uma a uma.
   Mas não era louca. Bem sabia contar até onze, só não sabia a diferença entre o dia em que aprendeu a contar e a data adiada de hoje. E por conseguir passar do dez tinha a certeza de que seus planos inertes seriam todos grandiosos se não fosse pela assombração na casa, nem por aquela garotinha - talvez sua neta? - que não sabia contar mais do que os dedos, mas conseguia enganar a avó com uma moeda escondida atrás da orelha.

domingo, 12 de janeiro de 2020

O templo

Não tenho coragem de abandonar o templo.
Pela união
Dos vitrais iluminados,
Dos outros vitrais, escuros, escassos,
Que jazem na paz de seus estilhaços
Se narra a divina tragédia
Dos atos de mim.

Nos altares, trovo palavras ressentidas
Às minhas musas incompletas
Que ainda lamentam o templo
Como fossem musas proibidas
E vejo, de seus rostos, a escolta
Desejando que me vissem
De volta.

Não dá.
As paredes não cederam ao milagre,
Mas dá
Pra enxergar o rastro dele,
E eu juro, juro que o teto não vai desabar.
Pra reparar o alastro das rachaduras,
É atrás do altar,
Atrás de todo o mundo,
Num lugar onde tem que enxergar fundo.

O templo vai ficar como está,
Em respeito à religião.
A respeito da jarra que quebrou,
Tem amor esparramado pelo chão,
Pelas aves, pelos umbrais,
E até por corredores que eu não alcanço mais.

Eu juro, juro que nada mais vai cair.
O templo parece que trova por vontade própria.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Ruído

Me ergo sinergicamente ao olhar do espelho,
Como se entendesse o anseio
Por desvendar cada pensamento
De um bloqueio,
Raciocinando cada estanco
Como um ruído branco
Rondando a indisposição,
Como se o espelho
Fosse me fazer enxergar algum detalhe perdido,
Algum entalhe no estanco
Tão sentido,
E sou apenas refém, me ajoelho
Como marionete
Do espelho.

Me perco inevitavelmente em tentar agir,
Porque nada nunca acontece,
Porque ao cair,
Há uma força que me segura
E me ampara de tudo que parece estar no fim,
Confortável como veludo,
E vinda de dentro de mim,
Porque, no fundo,
De onde estou sempre compondo,
É onde me escondo,
Com isolamento acústico brando
E me faço pensar em ruído branco.

Como marionete avessa do espelho,
Sempre fazendo o empírico
Estrago insensato
Do meu eu-lírico,
É no espelho que busco o sentido
Por trás do ruído,
Do meu eu escondido.

Talvez minha mente esteja em coma,
Talvez apenas não compartilhamos
Do mesmo idioma,
Porque minha mente se estica numa onda única
Daquela mesma música,
E meu corpo, treme,
Em pose retraída
Se apossando timidamente
Da batida.

Mas por dentro, eu sinto tanto algo que tanto me valia,
Que em meio ao ruído nem sei o que é,
Mas sinto que é saudade da poesia.

sábado, 7 de setembro de 2019

Gritar sem tinta

Enquanto muito aspiro em vão
Tua existência, como musa,
Como existisse inspiração,
Como exalasse o mesmo perfume
Aquela blusa
Que já foi lavada tantas vezes após despegar-se de teu corpo,
Te evoco,
Como voz inaudível e sucinta
Da poeta que grita
Sem tinta.

Me retiro de cada vão
De tua inexistência, e como ousa,
Como existisse explicação,
Varrer para baixo do tapete
E tomar a razão de lambuja
Por não ousar
Lavar nossa roupa suja,
Que agora perfuma teu silêncio de ovelha
E cada grito
De cor vermelha.

A tinta chega a faltar para tudo que não cabe a este poema,
A cautela,
A sagacidade,
A   or,
A s    dade,
Como se o papel me gritasse de volta
E me pedisse para ter calma.

Não ouso
Inexistir o que me consome,
Maldizer à tinta
Teu nome.

quinta-feira, 25 de julho de 2019

O vento que bate sobre as nuvens do inferno

Me flagro fluida no reflexo terno, em tua face,
Em teus olhos, nossas nuvens ao vento
Do inverno,
E alterno, na tez, a tração muscular,
A atração borbulhante
Do teu olhar.

Se me assopras, me ofegas, como nuvens no inferno,
E me dobras ao calor do que o inverno fosse,
Pois suspiras uma brisa ligeira
Espalhando ao redor minha cripta fogueira,
Sípido e doce.

Nunca tão envolvente,
Nunca o inverno
Ressoou tão quente.