segunda-feira, 29 de agosto de 2022
My most beautiful poem
domingo, 10 de abril de 2022
Deusa de aquarela
Minha deusa paralela,
Hoje trago flores ao teu altar,
Sublinho em meu semblante
Teu sorriso sublime e incitante
A cada instante cru do teu
[beijar.
Marcante deusa de aquarela,
Hoje venho a ti com sincronia
Do teu macrocosmo, a
[preencher meu peito nu
Com tua cachoeira de lágrimas
[felizes
Ao meu microcosmo a me
[entregar a ti
Com a alma para além do
[corpo;
Me recebe aquém da mente
[tísica,
Além da metafísica
Do equilíbrio das dicotomias
[inexistentes que és.
Ó deusa radiante que me
[encara sedutora
Do espelho,
Já desfrutei tua rija carne,
Me deixei embriagar no teu
[sangue
E venho a ti em comunhão,
Declaro um
Nosso coração
Que morre e desmorre
No tudo e nada a que toda a
[entropia decorre,
Me tornando viva a cada
[momento
Que grito
E voo
E sou um espírito vivo
No teu pensamento.
Deusa da minha psiquê,
Me foi concedido de tuas mãos
O dom
De ser a água debaixo do Buda,
E as camélias da árvore ao
[lado,
E o vento que desvia de cada
[carro
E brinca com meu cabelo
E apaga o meu cigarro.
E sou feliz ao ser tudo e nada,
Tão vasta quanta vaga;
E vago devagar,
Divagando teus pensamentos
Em cada rua indeserta que
[percorro.
Dança comigo, ó deusa,
Minha clemência,
Insana consciência.
domingo, 27 de março de 2022
Esse pedaço de papel não existe
Este pedaço de papel inexistente é meu refluxo. A única vida que posso dar a ele é parte da que me pertence, mas concedo-me. Porque concordo que vivo demais, mas também discordo de que a vida já não me cabe. Das vidas que vivo, milhões de vidas que sequer existiram, e também as que existiram, se posso registrá-las, continuarei vivendo em paralelo a todos que também as viverem graças a esse papel metafórico.
Não quero que aconteça com tudo isso que já não cabe em mim e devo vomitar ao papel o que aconteceu com a Ísis. Já não lembro quase nada dela, exceto o impacto que foi na época sentir tudo o que senti por ela. Acredito que as vidas que nunca existiram são mais sujeitas à dismorfia que as outras. De certo modo, as que existiram deixam rasgos na realidade - por mais que nada não seja naturalmente sujeito a mudança - e renascem em marcas do passado e situações do presente, por minúsculo que seja esse tempo. Já as que nunca existiram são apenas histórias que se deixo que habitem apenas a minha mente raramente algum rasgo ou imagem me reconstroi uma memória profunda daquilo que vivi. Como a Ísis, que não lembro se tinha personalidade ou se apenas assumo que ela deveria ter uma. Como pensei que ela tinha olhos azuis ao tentar encontrar algo concreto na memória, mas depois me perguntei se não seriam verdes, e agora creio que eram talvez apenas claros sem cor nenhuma específica.
Não acredito que existam mentiras, e tampouco que alguém me poderia envenenar com mentiras. As mentiras, as que inventamos conscientemente, são vida que damos à vontade de que algo fosse diferente de como é. E as que sonhamos, acordados ou não, também são experiências por onde nossas cabeças flutuam. Não há como me envenenar porque as crio toda hora, e portanto sei identificá-las, e sei também brincar como se as vivesse. Dito isso, testo a exaustão física de quem dormiu pouco, a mental de quem viveu muito e o significado ao papel que menti para tentar, no futuro, pousar a consciência sobre como foi viver a realidade semicosciente.
Algumas coisas só se deve viver em falso. Me sinto em poder de tornar realidade muito do que sonho, mas a maior parte de meus sonhos é pequena demais para ocupar um poder tão grande. Talvez alguns não fossem se não coubesse a mim vivê-los. Talvez não fossem se você soubesse ler, investigar, procurar. Dar vida a tudo que se sonha seria um desperdício não só de poder, mas também de coragem. É preciso coragem para dar-se a uma existência, e é preciso também coragem para aceitar vivê-la. E eu não vejo ninguém fazer nada a respeito de nada. E o tempo, as coisas que existem de verdade, não se preenchem de vazio.
Outras coisas se deve viver com tudo. E por isso não devo dizer mais nada, não ao papel que sequer existe.
Azoth
segunda-feira, 14 de março de 2022
Decantação
domingo, 20 de fevereiro de 2022
Poema para despertar as abelhas
Porque as vi zanzando
Aquele dia,
Por sobre a floreira, profetizando
Minha maldição derradeira,
Como minhas centelhas,
As abelhas diziam, ornando a flora
Tudo o que sentirei
Para além de agora.
Agouros outrora,
Voavam desparelhas
Por flores vermelhas,
Marrons depois de passada minha hora
Quando me acometeu a insensatez
De acreditar nas macias
Zumbidas profecias
Pela primeira vez.
Guardarei para sempre a imagem
Da abelha solitária, ao voar
E pousar no meu copo
Numa mesa de bar:
Ao romper o medo
Daquele que me acompanhava,
Ofereci o dedo
E quando ela pousou, indefesa,
Arauto de minha sorte,
Cantei sua beleza
E previ sua morte.
Porque o universo a trouxe ao meu dedo,
Cobriu-me como pólen
O desejo zanzante,
O lampejo febril
Pelos toques profanos
Que ecoa por anos após aquele abril.
As abelhas em meu estômago,
Por inocente que fosse devorá-las nos tempos idos,
Vez ou outra me conectam a ontem
Pois ainda rompem os meus tecidos.
Enfeiticei minha vida de abelhas
E por isso me assombra o que ainda pode vir,
Pois o encanto dos versos
Que ainda canto
É que as coloca para dormir.
Porque as vi zanzando
Aquele dia,
E já não mais cantavam minha elegia,
Tú, que cruzou minha trajetória,
E a quem narro
Minha história,
Ainda leigo de minha maldição,
Me oferecestes feito enxame
A possibilidade de que talvez ainda ame
Ao tocar minha mão.
Desperto agora as abelhas,
Com o devido medo ou respeito,
Porque abril ainda era cedo
Pra ferroar meu peito.
Porque tens traços suaves
Dos lábios à sobrancelha,
Tenho um cuidado, carinho esse
Feito o dedo a uma abelha oferecesse
Pois és hoje beleza,
Amanhã não sei se dor.
Temo por meu estômago,
Enquanto procuro a efeito do peito torpo
Teu calor febril,
Teu perfume que já se esvaiu
De meu corpo.
Temo mas não mais prevejo
Arriscar um palpite
Que não teu beijo.
terça-feira, 8 de fevereiro de 2022
Sábata
A dor era insuportável. Sobretudo, a física. Sábata comparava, em sua imaginação, a situação em que uma variedade de lâminas de navalha se alojava em pontos diversos de seu corpo: Deslizavam e cortavam fácilmente os tecidos que tocavam, ora como consequência de um movimento, ora como castigo da gravidade.
Não bastasse a dor física, a lembrança de seu prazer mais vicioso atormentava sua psiquê. Sabia que não poderia repetí-lo novamente, não tão cedo. Mas, a cena que ocorrera há pouco mais de um mês ainda impregnava sua fantasia, visto que era uma visão mais deleitosa que a das paredes que não podia deixar para trás. E o banquete... Foi, de longe, o melhor de sua vida. Em sua mente, ainda se lambuzava das coxas de carne macia e suculenta. Devorava a refeição de forma ansiosa e compulsiva, como se tomasse de volta o sustento para um corpo que estivesse, e certamente estava, desgastado.
Também sentia culpa, uma culpa disforme perante o olhar do bom senso ao compreender a motivação desta. O tempo não passou, fluiu, no último ano. E Sábata certamente não o sentiu, não deu o devido valor. Agora, o valorizava, porque a dor infernal que impregnava seu corpo era um emaranhado de gritos que ela não tinha pregas para dar som, atormentando a finada paz que precedia esse momento, nos muitos - que agora eram poucos - meses em que a dor não a atormentava.
Vez ou outra tentava pensar em outras maneiras de contornar a dor, mas nenhuma soava tão coerente. Ao menos, não enquanto fosse a gula a tentação mais sonora. Pensou em autocirurgia. Em talvez remover, por conta própria, suas navalhas imaginárias, para que nunca mais o corpo a castigasse de tal maneira. Também era a morte uma utopia sedutora. Todas as opções convencionais não lhe surtiam efeito, e as imaginadas eram impossíveis devido a seu estado atual.
Talvez pudesse - devesse - solucionar a dor da mesma maneira de antes. Afinal, toda a trajetória era repleta de prazeres. Os da carne, o fim temporário do sofrimento, a carne. E tomou uma decisão.
Sábata aproximou-se da porta, e por onde se permitia olhar para dentro de onde estava, exibiu-se.
- Moço!
- Cai fora, doida! - Respondeu o guarda, com desdém.